O Nargaroth se apresentou na noite de ontem no Basement Cultural com abertura do Velho. Apesar de uma chateação meio geral com o fato de o show acontecer no meio da semana, percebi que as expectativas dos fãs eram bem altas porque finalmente aconteceria o show prometido desde o final de 2024 naquele fiasco da Mad. Esse, aliás, foi um tópico bem recorrente nas conversas do pessoal, já que a maioria dos presentes foi vítima do golpe da produtora.
A casa encheu bem, foram vendidos cerca de duzentos ingressos antecipados, além dos ingressos vendidos na hora a a R$ 200. Também veio bastante gente de outras cidades, mesmo o evento acontecendo em plena terça-feira, e fiquei bem contente em poder encontrar as meninas que vieram de Florianópolis, e conhecer o casal que ganhou o sorteio que fiz para a Caveira Velha no Instagram. Eles são queridíssimos! Fizeram um bate e volta de Foz do Iguaçu para cá e, eu soube depois que na viagem de volta ainda deram carona para um outro cara que veio sozinho de Cascavel para ver o show.
O que mais gosto nesses eventos que são um pouco maiores é a convergência do público que vem de diversos lugares, diferentes históricos de vida, profissionais, familiares e etc. para um único lugar no tempo e no espaço. De um universo de possibilidades, todos fazem uma mesma escolha que é motivada, fundamentalmente, pela paixão. Acho que essa paixão coletiva está na raiz do mito sobre a cena do metal ser como “uma grande família”. Não vou discutir esse mito agora porque a cena extrema é politicamente complexa demais e não quero perder o rumo da análise, já que, como aponta o título, a questão dos vínculos socioafetivos foi o principal ponto de inflexão desse show.
Ao longo do tempo, frequentar os rolês de um mesmo segmento segmento cultural permite fomentar vínculos que surgem fora da nossa esfera social imediata – família e trabalho, basicamente – mas que não necessariamente se mantêm fora dela. Isso porque alguns desses vínculos sociais ocasionalmente ganham sentidos afetivos e migram de amizades “do rolê” para amizades pessoais. Acho isso particularmente interessante ao se considerar que o recorte etário do público do metal extremo está ali entre os 30 e os 50 anos. Afinal, eu te pergunto: Com que frequência a gente que já passou dos 30 consegue fazer amizades?
Aqui estou usando amizade como sinônimo de vínculo afetivo, embora nem todo vínculo afetivo seja uma amizade – isso vai ser importante quando chegar na parte sobre o Nargaroth, mas, por ora, sigamos. Um dos desdobramentos mais interessantes da escolha da autoetnografia* como metodologia de pesquisa nesse blog tem sido, não apenas colocar meus próprios vínculos socioafetivos numa perspectiva relacional, mas observar como o blog tem se tornado, cada vez mais, um fator determinante no meu círculo social. Por meio dele, tenho tido a oportunidade de interagir com pessoas e situações que dificilmente aconteceriam de outra forma, o que tem sido muito importante num plano pessoal uma vez que nos últimos anos a maioria dos meus amigos mais próximos emigraram para outros países.
Ainda que bastante sociável, nunca fui de ter muitos amigos e acho difícil formar vínculos com as pessoas. Até a adolescência sofri muito com bullying e isolamento social, consequências que hoje entendo estarem relacionadas a racismo e à minha condição de neurodivergência (ah/sd). O metal extremo surgiu, para mim, como uma resposta às emoções intensas que eu ainda não tinha vocabulário para compreender, de forma tal que a agressividade estética da música se converteu em espaço seguro de expressão da minha verdade. Imagino que o processo, no caso, a formação desse vínculo afetivo com a música, seja bem similar para todos os fãs.
Dois momentos no rolê de ontem me fizeram pensar nisso: o primeiro foi quando o Caronte, vocalista do Velho fez um agradecimento à produção e ao público pela oportunidade de estar no palco fazendo a abertura para o Nargaroth, banda que conceituou como sendo “tão importante nas nossas juventudes“. O segundo foi quando uma moça me contou como o Nargaroth se tornou importante para ela no luto pelo falecimento de seu pai.
Esses dois momentos chamaram minha atenção porque ilustram a natureza dual da lírica do Nargaroth. Por um lado, uma fúria adolescente – isto é, tão cega que beira a ingenuidade – em faixas como Black Metal ist Krieg e Posessed by fucking Black Metal; Por ouro, uma contemplação melancólica de si que surge nas letras de The Agony of a dying Phoenix, Abschiedsbrief Des Prometheus (a carta de suicídio de Prometheus) e, claro, em Seven Tears are flowing to the River.
Nevermore thou riseth from the ashes
trecho da letra de ‘The Agony of a dying Phoenix’
For thy will has withered o’ away
And the taste from the waters of Lethe
Doth not fade thy haunting memories
A banda trouxe para a turnê pela América Latina um setlist que consolida essa dualidade lírica como sua maior força, alternando explosões de ódio antirreligioso e momentos introspecção emocional pouco comuns no repertório mais geral do black metal. A força afetiva da nostalgia foi o fio condutor da performance, que teve como ponto alto a execução de um cover excelente de Dead Embryonic Cells, do Sepultura. Ash, o vocalista e único membro permanente do Nargaroth, chegou a comentar no microfone que talvez o filho do baterista Igor Cavalera estivesse entre o público, mas o rapaz ficou bem quietinho na dele. Eu teria feito o mesmo, imagina a vergonha de todo mundo parar e olhar pra mim kkkk scrr.
Se, por um lado, a performance foi irretocável, a estrutura, por outro, deixou demais a desejar. Sempre elogiei bastante o Basement Cultural aqui no blog, especialmente pela qualidade do som, que estava, de fato, excelente. O único “detalhe” foi que a casa desligou o ar condicionado e todos os ventiladores, apesar das mais de 200 pessoas no interior do recinto fechado e recoberto pelo isolamento acústico. O resultado foi um forno insalubre como eu nunca havia visto naquele lugar, todo mundo pingando suor e perdendo trechos do show para conseguir respirar um mínimo na área externa. Domingo 05/04 o Kool Metal Fest vai acontecer na mesma casa, mas confesso que só de pensar no calor e no desconforto já me dá um desânimo. Eu já soube de certos bares que desligam a ventilação durante os shows para aumentar a venda de bebidas e espero, do fundo do coração, que não seja esse o caso do Basement.
Ash, que normalmente é um cara bastante acessível com o público, desapareceu tão logo desceu do palco, imagino que em razão da exaustão e do calor. Fiquei com pena dele e dos outros músicos vestidos dos pés à cabeça em couro naquele forno infernal. Quando eles batiam cabeça dava pra ver o suor gotejando, o que foi ao mesmo tempo triste e nojento. Várias pessoas haviam levado discos e cds para autografar, mas apenas os músicos da turnê conseguiram dar alguma atenção aos fãs. Uma pena para quem esperava conhecer a lenda por trás do Nargaroth.
No aspecto da interação entre público e banda, observei bastante gente procurando os caras do Velho, que ficaram na banca de merch após terminarem o show de abertura. A banda retornou a Curitiba poucos meses após seu último show na cidade (que aconteceu em outubro de 2025 junto do Podridão também no Basement) trazendo na bagagem um setlist composto por 15 músicas que ilustram diferentes momentos de sua trajetória. Nesse segundo show que assisti, pude observar melhor como a banda cria sua lírica no black metal a partir de uma identidade musical fortemente enraizada no punk.
Como já havia comentado na crônica sobre o Sekeromlat, acho muito bacana essa perspectiva que mescla a crueza do black metal com a perspectiva DIY evocada pelo punk, porque sugere um modo de fazer música extrema muito mais ancorado na realidade do underground brasileiro. Sem o escapismo das florestas sombrias, sem castelos em ruínas, sem cemitérios românticos – apenas o ódio que apodrece nas sarjetas das grandes cidades. Tenho percebido que esse ancoramento na crueza da realidade vem ganhando importância na conquista de um público mais jovem para a música extrema – especialmente em se tratando do Velho – só não sei ainda como exatamente esse fenômeno se desenrola.
Não sei se foi na véspera ou no dia do show, vi no caminho para o trabalho um piá vestindo uma camiseta do Velho. Abri o vidro para gritar para ele, mas o farol abriu e tive que arrancar com o carro. Ver alguém com a camiseta do Velho no meio do bairro Bacacheri antes das 8 da manhã num dia qualquer me arrancou um sorriso sincero, e foi, certamente, um bom augúrio para a apresentação da banda. Estou curtindo acompanhá-los sempre que vêm à cidade.
É uma combinação interessante essa de Velho e Nargaroth. São novos e velhos vínculos de afinidades que revelam o quão dinâmico é o underground extremo aqui no Brasil. Nesse aspecto ainda acho o rolê curitibano bastante conservador: aqui o público raramente se mistura entre diferentes subgêneros do metal, ou mesmo entre diferentes perspectivas dentro de um mesmo subgênero. Mas acaba que esses eventos um pouco maiores, que trazem bandas estrangeiras, forçam (por falta de uma palavra mais adequada) a convergência de olhares para um mesmo tema, um mesmo lugar, um mesmo espaço.
* Os pesquisadores Fabiene Gama, Gustavo Raimondi e Nelson Barros (2021) definem a autoetnografia como “uma forma de pesquisa qualitativa que parte da análise crítica de experiências pessoais para refletir sobre práticas sociais mais amplas“.


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