{"id":514,"date":"2025-10-22T13:46:03","date_gmt":"2025-10-22T16:46:03","guid":{"rendered":"https:\/\/curitibametal.com\/?p=514"},"modified":"2025-11-03T21:43:01","modified_gmt":"2025-11-04T00:43:01","slug":"a-ressurgencia-do-primitivo-em-velho-e-podridao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/curitibametal.com\/?p=514","title":{"rendered":"A ressurg\u00eancia do primitivo em Velho e Podrid\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Chamar de \u201cprimitivo\u201d o que se observa hoje em partes do underground extremo brasileiro n\u00e3o \u00e9 nostalgia ing\u00eanua. \u00c9 uma escolha pol\u00edtica e est\u00e9tica. O que retorna n\u00e3o \u00e9 apenas um som com caracter\u00edsticas de uma \u00e9poca, mas um regime de sensibilidades que recusa a equival\u00eancia entre tecnicalidade e qualidade. Nesse quadro, \u201cvelho\u201d n\u00e3o significa atrasado; significa reduzir media\u00e7\u00f5es, cortar excessos, recentrar a m\u00fasica na express\u00e3o de afetos dif\u00edceis, como raiva, desencanto, desespero,  e relig\u00e1-la a contextos sociais concretos. \u00c9 um gesto que reorganiza prioridades: menos lapida\u00e7\u00e3o digital, mais convic\u00e7\u00e3o; menos performance de virtuosismo, mais coer\u00eancia de atitude.<\/p>\n\n\n\n<p>A trajet\u00f3ria do Velho, enraizada na Baixada Fluminense, ajuda a entender a materialidade dessa primitividade. A periferia n\u00e3o entra como cen\u00e1rio exotizado, mas como tecnologia social que d\u00e1 sentido a escolhas sonoras e tem\u00e1ticas. O ru\u00eddo \u00e1spero, o timbre arenoso, a mixagem que preserva imperfei\u00e7\u00f5es, o vocal em portugu\u00eas que n\u00e3o apara arestas: tudo aponta para uma recusa do polimento enquanto valor em si e para a manuten\u00e7\u00e3o de uma dist\u00e2ncia cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s expectativas de comercializa\u00e7\u00e3o impostas pela l\u00f3gica do mercado. No plano l\u00edrico, a op\u00e7\u00e3o por uma misantropia expl\u00edcita \u2014 isolamento, cr\u00edtica \u00e0 sociabilidade, sa\u00fade mental como fissura \u2014 desloca o eixo do black metal de uma rebeli\u00e3o teol\u00f3gica\/disciplinar para uma cr\u00edtica que \u00e9, a um s\u00f3 tempo, existencial e social. N\u00e3o h\u00e1 fuga para mitologias importadas; h\u00e1 enfrentamento de uma experi\u00eancia brasileira de urbanidade tensa, precariedade e desencanto. Essa opera\u00e7\u00e3o traduz uma dimens\u00e3o cultural espec\u00edfica: o black metal como linguagem para elaborar conflitos do Brasil urbano, com seu vocabul\u00e1rio de estetiza\u00e7\u00e3o particular. <\/p>\n\n\n\n<p>Inserir o Podrid\u00e3o nessa discuss\u00e3o amplia esse panorama. A banda opera no l\u00e9xico do blackened death metal: riffs densos, afina\u00e7\u00e3o grave, \u00eanfase no corpo e na decomposi\u00e7\u00e3o. O \u201cgrotesco\u201d aqui n\u00e3o \u00e9 choque gratuito; \u00e9 uma forma de recolocar a vulnerabilidade e a finitude do corpo no centro de uma m\u00fasica que, muitas vezes, foi capturada por m\u00e9tricas de proeza t\u00e9cnica. Existe um circuito de cultura implicado nesse gesto. Ao preferir timbres saturados, grava\u00e7\u00e3o crua e repert\u00f3rio l\u00edrico de horror f\u00edsico, a banda enfatiza materialidade contra abstra\u00e7\u00e3o. Em termos culturais, isso opera como cr\u00edtica \u00e0 estetiza\u00e7\u00e3o do extremo: o desconforto volta a ser um dado da experi\u00eancia, n\u00e3o apenas um elemento de imagem. O circuito ao vivo, caracterizado pelas turn\u00eas constantes e pela ades\u00e3o \u00e0 \u00e9tica do palco como \u201cvitrine\u201d do real, refor\u00e7a o v\u00ednculo com pr\u00e1ticas do underground que valorizam presen\u00e7a, risco e improviso dentro de par\u00e2metros pr\u00f3prios do g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>Velho e Podrid\u00e3o trabalham negatividades distintas: o primeiro concentra-se no psicol\u00f3gico e no social; o segundo, no biol\u00f3gico e no abjeto. Convergem, no entanto, ao recusar a equival\u00eancia entre virtuosismo e \u201cm\u00fasica melhor\u201d; ambos tratam produ\u00e7\u00e3o como parte da mensagem; ambos operam com repert\u00f3rios de refer\u00eancias que preservam conex\u00f5es com a tradi\u00e7\u00e3o brasileira do black metal n\u00e3o como fetiche revivalista, mas como linguagem que se atualiza no presente. Nesse sentido, o estilo old school deixa de ser categoria hist\u00f3rica e vira categoria est\u00e9tica. \u00c9 um modo de fazer que se mede por crit\u00e9rios independentes, validados pelo pr\u00f3prio circuito: firmeza de dire\u00e7\u00e3o, parcim\u00f4nia em adornos, vigil\u00e2ncia contra a encena\u00e7\u00e3o vazia.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, todo retorno ao \u201cprimitivo\u201d sugere riscos: fetichiza\u00e7\u00e3o do ru\u00eddo, fechamento dogm\u00e1tico, repeti\u00e7\u00e3o &#8211; aquele batido vocabul\u00e1rio de todo tr00z\u00e3o. No caso das duas bandas, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 manter crit\u00e9rio, atualizando temas sem diluir postura e usando o passado como caixa de ferramentas, n\u00e3o como moldura obrigat\u00f3ria. O enraizamento se constr\u00f3i pela ancoragem no local: cantar em portugu\u00eas, tematizar experi\u00eancias comuns e cultivar o circuito ao vivo dificultam a convers\u00e3o do som em pose e marra. Essa decis\u00e3o tem desdobramentos no plano social, uma vez que reinsere o ru\u00eddo como linguagem da cena, reafirma o underground como espa\u00e7o de valor n\u00e3o negoci\u00e1vel e devolve \u00e0 m\u00fasica a capacidade de nomear experi\u00eancias extremas sem medi\u00e1-las demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Se h\u00e1 futuro para a cena, ele passa pela manuten\u00e7\u00e3o dessa gram\u00e1tica de conten\u00e7\u00e3o e densidade: timbres que n\u00e3o pedem desculpa, letras que n\u00e3o sobem no palanque, discos que soam como gente tocando junto. Velho e Podrid\u00e3o demonstram que \u201cprimitivo\u201d pode ser uma forma contempor\u00e2nea de precis\u00e3o est\u00e9tica e social. Em vez de espet\u00e1culo, of\u00edcio; em vez de brilho, subst\u00e2ncia. \u00c9 assim que a alma do extremo segue reconhec\u00edvel, e, por isso mesmo, necess\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"842\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/curitibametal.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/FB_IMG_1759885094204-842x1024-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-519\" srcset=\"https:\/\/curitibametal.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/FB_IMG_1759885094204-842x1024-1.jpg 842w, https:\/\/curitibametal.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/FB_IMG_1759885094204-842x1024-1-247x300.jpg 247w, https:\/\/curitibametal.com\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/FB_IMG_1759885094204-842x1024-1-768x934.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 842px) 100vw, 842px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong> Velho e Podrid\u00e3o em Curitiba &#8211; abertura com Ethel Hunter<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p><strong>Data:<\/strong>&nbsp;24 de outubro de 2025 (sexta-feira)<br><strong>Abertura da casa:<\/strong>&nbsp;19h<br><strong>Local:<\/strong>&nbsp;Basement Cultural<br><strong>Endere\u00e7o:<\/strong>&nbsp;Rua Desembargador Benvindo Valente, 260 \u2013 S\u00e3o Francisco, Curitiba \u2013 PR<br><strong>Ingressos:<\/strong> Terceiro lote a partir de R$ 69 (ingresso + taxas) pelo site <a href=\"https:\/\/101tickets.com.br\/events\/details\/Velho-e-Podridao-em-Curitiba\">101tickets.com.br<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chamar de \u201cprimitivo\u201d o que se observa hoje em partes do underground extremo brasileiro n\u00e3o \u00e9 nostalgia ing\u00eanua. \u00c9 uma escolha pol\u00edtica e est\u00e9tica. 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