{"id":526,"date":"2025-11-03T21:13:56","date_gmt":"2025-11-04T00:13:56","guid":{"rendered":"https:\/\/curitibametal.com\/?p=526"},"modified":"2025-11-06T14:28:21","modified_gmt":"2025-11-06T17:28:21","slug":"o-show-do-brujeria-e-a-bruxaria-da-escrita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/curitibametal.com\/?p=526","title":{"rendered":"O show do Brujeria e a bruxaria da escrita"},"content":{"rendered":"\n<p>O show do Brujeria aconteceu j\u00e1 h\u00e1 tr\u00eas semanas e s\u00f3 agora consegui sentar para escrever sobre ele. Bom, antes tarde do que nunca, n\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 que um tempo consider\u00e1vel se passou entre o show e a escrita, vou fazer um exerc\u00edcio, e convido quem me l\u00ea a fazer o mesmo: <em>Que tipo de caracter\u00edsticas s\u00e3o mais marcantes em um evento? Sobre quais temas vale \u00e0 pena escrever?<\/em><br>Para responder a essa pergunta vou dividir minhas observa\u00e7\u00f5es em tr\u00eas categorias gerais, e cada categoria em alguns t\u00f3picos. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>PRODU\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Jokers continua sendo, na minha opini\u00e3o o melhor lugar para shows em Curitiba. A casa abre cedo por causa do happy hour, mas o espa\u00e7o do show abriu um pouco mais tarde. O show, previsto para as 20h, iniciou \u00e0s 21h.<\/li>\n\n\n\n<li>Esse atraso at\u00e9 foi bom para mim, deu tempo de encontrar o pessoal e comer alguma coisa tranquila antes da banda subir ao palco. Por outro lado, evento no meio da semana quebra as pernas do proletariado metaleiro: existe a preocupa\u00e7\u00e3o em calcular muito bem tudo o que se faz, j\u00e1 que as consequ\u00eancias sempre aparecem no dia seguinte. <\/li>\n\n\n\n<li>Tenho achado interessantes as produ\u00e7\u00f5es mais recentes da Est\u00e9tica Torta, em especial as turn\u00eas de Anette Olzon e Brujeria pelo Brasil, porque elas contaram com v\u00e1rias datas e passagens por diferentes cidades. Isso parece ir na contram\u00e3o da tend\u00eancia de turn\u00eas enxutas, com apresenta\u00e7\u00f5es \u00fanicas em S\u00e3o Paulo. Sorte a nossa \ud83d\ude42<\/li>\n\n\n\n<li>A qualidade do som estava espetacular!!! Jokers nunca decepciona nesse quesito, mas dessa vez os engenheiros de som mandaram bem demais. Foi legal ver um dos rapazes fazendo os ajustes necess\u00e1rios em uma mesa digital, no meio da pista. Isso fez toda a diferen\u00e7a na experi\u00eancia do show. Fica essa dica a\u00ed pro pessoal do Tork, pelo amor de deus, gente.<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p><strong>BANDA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>O Jeff Walker, baixista do Carcass, com seu personagem El Cynico foi absolutamente o ponto alto para mim. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 um m\u00fasico fodasso, mas estava muito fofo naquele look branco de cowboy. Ele se juntou \u00e0 banda em 2006 e participou das grava\u00e7\u00f5es de Pocho Aztl\u00e1n (2016). Embora morra de vontade, nunca consegui ver Carcass ao vivo (o \u00faltimo show deles em Curitiba custava uma fortuna), ent\u00e3o foi legal estar a apenas um grau de separa\u00e7\u00e3o dessa banda.<\/li>\n\n\n\n<li>Aparentemente, Brujerizmo \u00e9 o \u00e1lbum mais famoso da banda, mas acho que o p\u00fablico curtiu mais a porrada das m\u00fasicas dos anos 90, como La Migra e Matando G\u00fceros. A dobradinha Consejos Narcos\/Marijuana fechou o show com energia e bom humor, convidando os maconheiros na plateia a acenderem seus becks. O engra\u00e7ado de n\u00e3o ser ~maconhista~ foi poder chapar de leve por tabela haha<\/li>\n\n\n\n<li>Essa turn\u00ea inteira \u00e9 uma homenagem aos vocalistas Pinche Peach e Juan Brujo,  falecidos no ano passado. Um pouco antes do final do final do show, o vocalista atual disse algumas palavras em homenagem aos finados e apresentou os membros da banda de maneira estapaf\u00fardia &#8211; perguntando ao p\u00fablico qual o nome (o pseud\u00f4nimo, no caso) de cada m\u00fasico. Evidente que a galera na pista n\u00e3o sabia. O El Sangr\u00f3n (procurei o nome dele depois) pareceu n\u00e3o se abalar mas rolou um desconforto bem engra\u00e7ado na plateia. <\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p><strong>P\u00daBLICO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>A an\u00e1lise demogr\u00e1fica baseada no Olh\u00f4metro\u2122\ufe0f foi consideravelmente diferente dos \u00faltimos dois eventos. Acredito que tenha, pesado, principalmente, os R$ 150 do ingresso e o show acontecer numa ter\u00e7a-feira. A diferen\u00e7a na propor\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres estava ainda mais gritante que o habitual, cerca de 95% para 5%, e a faixa-et\u00e1ria tamb\u00e9m estava mais alta, com predomin\u00e2ncia dos 35 a 50 anos. <\/li>\n\n\n\n<li>Vejo isso como reflexo da divis\u00e3o sexual do trabalho reprodutivo, visto que mulheres na faixa dos 30 e poucos\/40 e poucos costumam ter filhos em idade escolar. A alta representa\u00e7\u00e3o desse p\u00fablico tioz\u00e3o sugere que muitos caras foram l\u00e1 curtir a banda e &#8220;deixaram a patroa em casa&#8221;.<\/li>\n\n\n\n<li>Esse recorte bastante homog\u00eaneo me deixou um pouco aliviada. Situa\u00e7\u00f5es como o ass\u00e9dio que passei no show do Behemoth e o chute que levei no show do Flagelador tendem a acontecer em eventos mais muvucados, com p\u00fablico de todo canto. N\u00e3o estou dizendo que eventos com diversidade de p\u00fablico sejam negativos e\/ou arriscados, mas a homogeneidade do p\u00fablico, nesse caso, pressup\u00f5e uma maior previsibilidade de comportamentos. <\/li>\n\n\n\n<li>Tinha um casal perto de mim na pista em que a mo\u00e7a entrou no mosh, seguida, um pouco depois, pelo companheiro. Casal que mosha junto, continua junto \ud83d\ude42<\/li>\n\n\n\n<li>Uma amiga comentou que esse show era um presente de anivers\u00e1rio para a adolescente interior dela. Acho que resumiu bem um sentimento comum entre o p\u00fablico desse rol\u00ea &#8211; uma nostalgia carregada pela energia da adolesc\u00eancia. <\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p><strong><em>\u00c0 guisa de uma coda<\/em><\/strong>&#8230;<\/p>\n\n\n\n<p>Terminando agora o texto me surpreendi por conseguir detalhar tantas observa\u00e7\u00f5es de mem\u00f3ria. Evidente que os aspectos que me chamam mais a aten\u00e7\u00e3o sempre dizem respeito \u00e0s din\u00e2micas sociais entre o p\u00fablico e \u00e0s intera\u00e7\u00f5es com a banda, mas, em certa medida, me surpreender perceber o quanto isso media minha percep\u00e7\u00e3o e experi\u00eancia em cada show. Ultimamente, tenho recebido coment\u00e1rios negativos em que os autores &#8211; sempre homens &#8211; menosprezam a qualidade da minha escrita por eu n\u00e3o tratar exclusivamente das bandas, do palco e do som. <\/p>\n\n\n\n<p>A recorr\u00eancia desse tipo de coment\u00e1rio tem me feito pensar o quanto deve ser dif\u00edcil escrever uma boa resenha. Vejo com muita frequ\u00eancia resenhas de show publicadas no Instagram com uma p\u00e9ssima legibilidade, em geral com os textos colados nos cards de imagens em postagens em formato de carrossel. Embora surja de uma conting\u00eancia evidente do formato da m\u00eddia, n\u00e3o consigo deixar de entender esse tipo de texto como algo feito por quem n\u00e3o gosta de escrever para quem n\u00e3o gosta de ler. Isso me faz ter ainda maior admira\u00e7\u00e3o pelo trabalho de quem se dedica a analisar algo t\u00e3o dif\u00edcil de definir como \u00e9 a m\u00fasica para traduzi-la na materialidade das palavras. <\/p>\n\n\n\n<p>Por isso defendo que a escrita \u00e9 o artesanato de\/sobre um tema, mas tamb\u00e9m da\/sobre a constru\u00e7\u00e3o de si mesmo, e convido para encerrar esse di\u00e1rio o soci\u00f3logo estadunidense C. Wright Mills que afirma: <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>O conhecimento \u00e9 uma escolha tanto de um modo de vida quanto de uma carreira; quer o saiba ou n\u00e3o, o trabalhador intelectual forma-se a si pr\u00f3prio \u00e0 medida que trabalha para o aperfei\u00e7oamento de seu of\u00edcio; para realizar suas pr\u00f3prias potencialidades, e quaisquer oportunidades que surjam em seu caminho, ele constr\u00f3i um car\u00e1ter que tem como n\u00facleo as qualidades do bom trabalhador.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Refer\u00eancia: MILLS, C. Wright. <strong>Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios.<\/strong> Rio de Janeiro.. Jorge Zahar Ed., 2009. p. 22.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O show do Brujeria aconteceu j\u00e1 h\u00e1 tr\u00eas semanas e s\u00f3 agora consegui sentar para escrever sobre ele. Bom, antes tarde do que nunca, n\u00e3o? J\u00e1 que um tempo consider\u00e1vel se passou entre o show e a escrita, vou fazer um exerc\u00edcio, e convido quem me l\u00ea a fazer o mesmo: Que tipo de caracter\u00edsticas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":531,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-526","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/curitibametal.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/526","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/curitibametal.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/curitibametal.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/curitibametal.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/curitibametal.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=526"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/curitibametal.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/526\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":530,"href":"https:\/\/curitibametal.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/526\/revisions\/530"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/curitibametal.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/531"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/curitibametal.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=526"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/curitibametal.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=526"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/curitibametal.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=526"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}