{"id":621,"date":"2026-04-05T14:34:40","date_gmt":"2026-04-05T17:34:40","guid":{"rendered":"https:\/\/curitibametal.com\/?p=621"},"modified":"2026-04-05T14:38:50","modified_gmt":"2026-04-05T17:38:50","slug":"velho-e-nargaroth-sobre-vinculos-e-convergencias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/curitibametal.com\/?p=621","title":{"rendered":"Velho e Nargaroth: sobre v\u00ednculos e converg\u00eancias"},"content":{"rendered":"\n<p>O Nargaroth se apresentou na noite de ontem no Basement Cultural com abertura do Velho. Apesar de uma chatea\u00e7\u00e3o meio geral com o fato de o show acontecer no meio da semana, percebi que as expectativas dos f\u00e3s eram bem altas porque finalmente aconteceria o show prometido desde o final de 2024 naquele fiasco da Mad. Esse, ali\u00e1s, foi um t\u00f3pico bem recorrente nas conversas do pessoal, j\u00e1 que a maioria dos presentes foi v\u00edtima do golpe da produtora. <\/p>\n\n\n\n<p>A casa encheu bem, foram vendidos cerca de duzentos ingressos antecipados, al\u00e9m dos ingressos vendidos na hora a a R$ 200. Tamb\u00e9m veio bastante gente de outras cidades, mesmo o evento acontecendo em plena ter\u00e7a-feira, e fiquei bem contente em poder encontrar as meninas que vieram de Florian\u00f3polis, e conhecer o casal que ganhou o sorteio que fiz para a Caveira Velha no Instagram. Eles s\u00e3o querid\u00edssimos! Fizeram um bate e volta de Foz do Igua\u00e7u para c\u00e1 e, eu soube depois que na viagem de volta ainda deram carona para um outro cara que veio sozinho de Cascavel para ver o show. <\/p>\n\n\n\n<p>O que mais gosto nesses eventos que s\u00e3o um pouco maiores \u00e9 a converg\u00eancia do p\u00fablico que vem de diversos lugares, diferentes hist\u00f3ricos de vida, profissionais, familiares e etc. para um \u00fanico lugar no tempo e no espa\u00e7o. De um universo de possibilidades, todos fazem uma mesma escolha que \u00e9 motivada, fundamentalmente, pela paix\u00e3o. Acho que essa paix\u00e3o coletiva est\u00e1 na raiz do mito sobre a cena do metal ser como &#8220;uma grande fam\u00edlia&#8221;. N\u00e3o vou discutir esse mito agora porque a cena extrema \u00e9 politicamente complexa demais e n\u00e3o quero perder o rumo da an\u00e1lise, j\u00e1 que, como aponta o t\u00edtulo, a quest\u00e3o dos v\u00ednculos socioafetivos foi o principal ponto de inflex\u00e3o desse show. <\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo do tempo, frequentar os rol\u00eas de um mesmo segmento segmento cultural permite fomentar v\u00ednculos que surgem fora da nossa esfera social imediata &#8211; fam\u00edlia e trabalho, basicamente &#8211; mas que n\u00e3o necessariamente se mant\u00eam fora dela. Isso porque alguns desses v\u00ednculos sociais ocasionalmente ganham sentidos afetivos e migram de amizades &#8220;do rol\u00ea&#8221; para amizades pessoais. Acho isso particularmente interessante ao se considerar que o recorte et\u00e1rio do p\u00fablico do metal extremo est\u00e1 ali entre os 30 e os 50 anos. Afinal, eu te pergunto: Com que frequ\u00eancia a gente que j\u00e1 passou dos 30 consegue fazer amizades?<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui estou usando amizade como sin\u00f4nimo de v\u00ednculo afetivo, embora nem todo v\u00ednculo afetivo seja uma amizade &#8211; isso vai ser importante quando chegar na parte sobre o Nargaroth, mas, por ora, sigamos. Um dos desdobramentos mais interessantes da escolha da <em>autoetnografia<\/em>* como metodologia de pesquisa nesse blog tem sido, n\u00e3o apenas colocar meus pr\u00f3prios v\u00ednculos socioafetivos numa perspectiva relacional, mas observar como o blog tem se tornado, cada vez mais, um fator determinante no meu c\u00edrculo social. Por meio dele, tenho tido a oportunidade de interagir com pessoas e situa\u00e7\u00f5es que dificilmente aconteceriam de outra forma, o que tem sido muito importante num plano pessoal uma vez que nos \u00faltimos anos a maioria dos meus amigos mais pr\u00f3ximos emigraram para outros pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que bastante soci\u00e1vel, nunca fui de ter muitos amigos e acho dif\u00edcil formar v\u00ednculos com as pessoas. At\u00e9 a adolesc\u00eancia sofri muito com bullying e isolamento social, consequ\u00eancias que hoje entendo estarem relacionadas a racismo e \u00e0 minha condi\u00e7\u00e3o de neurodiverg\u00eancia (ah\/sd). O metal extremo surgiu, para mim, como <em>uma resposta \u00e0s emo\u00e7\u00f5es intensas<\/em> que eu ainda n\u00e3o tinha vocabul\u00e1rio para compreender, <em>de forma tal que a agressividade est\u00e9tica da m\u00fasica se converteu em espa\u00e7o seguro de express\u00e3o<\/em> da minha verdade. Imagino que o processo, no caso, a forma\u00e7\u00e3o desse v\u00ednculo afetivo com a m\u00fasica, seja bem similar para todos os f\u00e3s.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois momentos no rol\u00ea de ontem me fizeram pensar nisso: o primeiro foi quando o Caronte, vocalista do Velho fez um agradecimento \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e ao p\u00fablico pela oportunidade de estar no palco fazendo a abertura para o Nargaroth, banda que conceituou como sendo <em>&#8220;t\u00e3o importante nas nossas juventudes<\/em>&#8220;. O segundo foi quando uma mo\u00e7a me contou como o Nargaroth se tornou importante para ela no luto pelo falecimento de seu pai. <\/p>\n\n\n\n<p>Esses dois momentos chamaram minha aten\u00e7\u00e3o porque ilustram a natureza dual da l\u00edrica do Nargaroth. Por um lado, uma f\u00faria adolescente &#8211;  isto \u00e9, t\u00e3o cega que beira a ingenuidade &#8211; em faixas como Black Metal ist Krieg e Posessed by fucking Black Metal; Por ouro, uma contempla\u00e7\u00e3o melanc\u00f3lica de si que surge nas letras de The Agony of a dying Phoenix, Abschiedsbrief Des Prometheus (a carta de suic\u00eddio de Prometheus) e, claro, em Seven Tears are flowing to the River.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Nevermore thou riseth from the ashes<br>For thy will has withered o&#8217; away<br>And the taste from the waters of Lethe<br>Doth not fade thy haunting memories<\/p>\n<cite><em>trecho da letra de &#8216;The Agony of a dying Phoenix&#8217;<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A banda trouxe para a turn\u00ea pela Am\u00e9rica Latina um setlist que consolida essa dualidade l\u00edrica como sua maior for\u00e7a, alternando explos\u00f5es de \u00f3dio antirreligioso e momentos introspec\u00e7\u00e3o emocional pouco comuns no repert\u00f3rio mais geral do black metal. A for\u00e7a afetiva da nostalgia foi o fio condutor da performance, que teve como ponto alto a execu\u00e7\u00e3o de um cover excelente de Dead Embryonic Cells, do Sepultura. Ash, o vocalista e \u00fanico membro permanente do Nargaroth, chegou a comentar no microfone que talvez o filho do baterista Igor Cavalera estivesse entre o p\u00fablico, mas o rapaz ficou bem quietinho na dele. Eu teria feito o mesmo, imagina a vergonha de todo mundo parar e olhar pra mim kkkk scrr.<\/p>\n\n\n\n<p>Se, por um lado, a performance foi irretoc\u00e1vel, a estrutura, por outro, deixou demais a desejar. Sempre elogiei bastante o Basement Cultural aqui no blog, especialmente pela qualidade do som, que estava, de fato, excelente. O \u00fanico &#8220;detalhe&#8221; foi que a casa desligou o ar condicionado e todos os ventiladores, apesar das mais de 200 pessoas no interior do recinto fechado e recoberto pelo isolamento ac\u00fastico. O resultado foi um forno insalubre como eu nunca havia visto naquele lugar, todo mundo pingando suor e perdendo trechos do show para conseguir respirar um m\u00ednimo na \u00e1rea externa.  Domingo 05\/04 o Kool Metal Fest vai acontecer na mesma casa, mas confesso que s\u00f3 de pensar no calor e no desconforto j\u00e1 me d\u00e1 um des\u00e2nimo. Eu j\u00e1 soube de <em>certos bares<\/em> que desligam a ventila\u00e7\u00e3o durante os shows para aumentar a venda de bebidas e espero, do fundo do cora\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o seja esse o caso do Basement. <\/p>\n\n\n\n<p>Ash, que normalmente \u00e9 um cara bastante acess\u00edvel com o p\u00fablico, desapareceu t\u00e3o logo desceu do palco, imagino que em raz\u00e3o da exaust\u00e3o e do calor. Fiquei com pena dele e dos outros m\u00fasicos vestidos dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a em couro naquele forno infernal. Quando eles batiam cabe\u00e7a dava pra ver o suor gotejando, o que foi ao mesmo tempo triste e nojento. V\u00e1rias pessoas haviam levado discos e cds para autografar, mas apenas os m\u00fasicos da turn\u00ea conseguiram dar alguma aten\u00e7\u00e3o aos f\u00e3s. Uma pena para quem esperava conhecer a lenda por tr\u00e1s do Nargaroth. <\/p>\n\n\n\n<p>No aspecto da intera\u00e7\u00e3o entre p\u00fablico e banda, observei bastante gente procurando os caras do Velho, que ficaram na banca de merch ap\u00f3s terminarem o show de abertura. A banda retornou a Curitiba poucos meses ap\u00f3s seu \u00faltimo show na cidade (que aconteceu em outubro de 2025 junto do Podrid\u00e3o tamb\u00e9m no Basement) trazendo na bagagem um setlist  composto por 15 m\u00fasicas que ilustram diferentes momentos de sua trajet\u00f3ria. Nesse segundo show que assisti, pude observar melhor como a banda cria sua l\u00edrica no black metal a partir de uma identidade musical fortemente enraizada no punk. <\/p>\n\n\n\n<p>Como j\u00e1 havia comentado na cr\u00f4nica sobre o Sekeromlat, acho muito bacana essa perspectiva que mescla a crueza do black metal com a perspectiva DIY evocada pelo punk, porque sugere um modo de fazer m\u00fasica extrema muito mais ancorado na realidade do underground brasileiro. <em>Sem o escapismo das florestas sombrias, sem castelos em ru\u00ednas, sem cemit\u00e9rios rom\u00e2nticos &#8211; apenas o \u00f3dio que apodrece nas sarjetas das grandes cidades<\/em>. Tenho percebido que esse ancoramento na crueza da realidade vem ganhando import\u00e2ncia na conquista de um p\u00fablico mais jovem para a m\u00fasica extrema &#8211; especialmente em se tratando do Velho &#8211; s\u00f3 n\u00e3o sei ainda como exatamente esse fen\u00f4meno se desenrola.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sei se foi na v\u00e9spera ou no dia do show, vi no caminho para o trabalho um pi\u00e1 vestindo uma camiseta do Velho. Abri o vidro para gritar para ele, mas o farol abriu e tive que arrancar com o carro. Ver algu\u00e9m com a camiseta do Velho no meio do bairro Bacacheri antes das 8 da manh\u00e3 num dia qualquer me arrancou um sorriso sincero, e foi, certamente, um bom aug\u00fario para a apresenta\u00e7\u00e3o da banda. Estou curtindo acompanh\u00e1-los sempre que v\u00eam \u00e0 cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma combina\u00e7\u00e3o interessante essa de Velho e Nargaroth. S\u00e3o novos e velhos v\u00ednculos de afinidades que revelam o qu\u00e3o din\u00e2mico \u00e9 o underground extremo aqui no Brasil. Nesse aspecto ainda acho o rol\u00ea curitibano bastante conservador: aqui o p\u00fablico raramente se mistura entre diferentes subg\u00eaneros do metal, ou mesmo entre diferentes perspectivas dentro de um mesmo subg\u00eanero. Mas acaba que esses eventos um pouco maiores, que trazem bandas estrangeiras, for\u00e7am (por falta de uma palavra mais adequada) a converg\u00eancia de olhares para um mesmo tema, um mesmo lugar, um mesmo espa\u00e7o. <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>* Os pesquisadores Fabiene Gama, Gustavo Raimondi e Nelson Barros (<a href=\"https:\/\/doi.org\/10.1590\/1984-6487.sess.2021.37.e21300\">2021<\/a>) definem a autoetnografia&nbsp;como &#8220;<em>uma forma de pesquisa qualitativa que parte da an\u00e1lise cr\u00edtica de experi\u00eancias pessoais para refletir sobre pr\u00e1ticas sociais mais amplas<\/em>&#8220;. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Nargaroth se apresentou na noite de ontem no Basement Cultural com abertura do Velho. 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