{"id":653,"date":"2026-08-23T11:40:31","date_gmt":"2026-08-23T14:40:31","guid":{"rendered":"https:\/\/curitibametal.com\/?p=653"},"modified":"2026-08-23T12:07:18","modified_gmt":"2026-08-23T15:07:18","slug":"sobre-esgotamento-e-a-mecanica-do-underground","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/curitibametal.com\/?p=653","title":{"rendered":"Sobre esgotamento e a mec\u00e2nica do underground"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Faz tempo que n\u00e3o publico nada, mas acho foda entupir o blog de releases de shows porque n\u00e3o s\u00e3o materiais produzidos por mim. E por mais que esses releases tenham o objetivo de servir como base para algum material autoral, minha criatividade anda t\u00e3o em baixa quanto a cena do metal extremo em Curitiba.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 maio desse ano eu estive trabalhando em dois empregos e, ap\u00f3s mais de um ano de muita dedica\u00e7\u00e3o e esfor\u00e7o, conquistei meu terceiro burnout \ud83c\udfc6\ud83c\udfc6\ud83c\udfc6&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa foi, de longe, a crise mais dif\u00edcil de lidar e, apesar de parcialmente recuperada, ainda estou avaliando os estragos que ficaram pelo caminho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acho que essa crise de burnout pode, na verdade, ser uma boa analogia para o que tem acontecido na cena extrema aqui em Curitiba com rela\u00e7\u00e3o aos shows.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para quem n\u00e3o sabe, aqui n\u00e3o existem produtoras de shows underground. Normalmente quem organiza os eventos s\u00e3o as pr\u00f3prias bandas, ou produtoras de fora &#8211; especialmente de Santa Catarina e S\u00e3o Paulo &#8211; que acrescentam \u00e0s turn\u00eas uma parada em Curitiba como meio do caminho entre S\u00e3o Paulo e Floripa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estar nesse \u201cmeio do caminho\u201d sempre foi uma sorte danada para a gente que mora aqui, mas, como tudo na sociedade, esse movimento tem ciclos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">1. O cen\u00e1rio macro<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitas das publica\u00e7\u00f5es que fiz aqui no Curitiba Metal de um ano para c\u00e1 t\u00eam como tema subjacente o fato de as ag\u00eancias estrangeiras terem se apercebido da devo\u00e7\u00e3o dos f\u00e3s latino-americanos como forma de capitalizar. Somos, afinal, fi\u00e9is apaixonados capazes de encarar qualquer perrengue pela banda do cora\u00e7\u00e3o. Eu mesma cheguei a conseguir dinheiro emprestado para comprar ingresso para um show no final desse ano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com isso, a Am\u00e9rica Latina virou parada obrigat\u00f3ria no circuito internacional de turn\u00eas de metal, especialmente no per\u00edodo de fim de ano \u2013 quando o inverno for\u00e7a a baixa temporada na Europa e Am\u00e9rica do Norte.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, produtoras locais como a mexicana Chamuco e a Savage Noise, da Col\u00f4mbia, se juntam para produzir cada uma um bra\u00e7o da turn\u00ea latino-americana de cada banda, sendo, aqui no Brasil, Caveira Velha, Xaninho e Liberation as produtoras respons\u00e1veis pela maior parte dos shows de bandas ligadas ao underground. Existem produtoras ainda mais underground, a exemplo da Bruxa Verde e Seven Crossroads, mas o volume de turn\u00eas produzidas por essas ag\u00eancias \u00e9 proporcionalmente menor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">M\u00e9xico, Col\u00f4mbia e Chile t\u00eam certa tradi\u00e7\u00e3o de grandes festivais, com isso, conseguem reunir headliners de peso em um \u00fanico evento que costuma se repetir anualmente. J\u00e1 aqui no Brasil, o \u00fanico festival dedicado exclusivamente ao metal extremo \u00e9 o Setembro Negro, que j\u00e1 n\u00e3o acontece mais todo ano. Desse modo, muitas das bandas que tocam juntas em grandes eventos em outros pa\u00edses v\u00eam ao Brasil para shows individuais &#8211; todos em datas muito pr\u00f3ximas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se, por um lado, \u00e9 excelente que haja essa temporada de shows na Am\u00e9rica Latina, por outro lado, a falta de estrutura e volume de p\u00fablico para festivais underground coloca os f\u00e3s sob a press\u00e3o das restri\u00e7\u00f5es de tempo e dinheiro. At\u00e9 hoje n\u00e3o me perdoo por ter tido que escolher entre ver Satyricon e Katatonia em 2023 porque n\u00e3o poderia passar v\u00e1rios dias ausente do trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas \u00e9 basicamente isso: como passou a existir uma temporada de shows na Am\u00e9rica Latina que acontece no contrafluxo dos shows na Europa e Am\u00e9rica do Norte, todas as bandas v\u00eam para o Brasil em datas muito pr\u00f3ximas. N\u00e3o \u00e9 incomum que entre os meses de outubro a dezembro aconte\u00e7am v\u00e1rios shows numa mesma semana, o que n\u00e3o d\u00e1 aos f\u00e3s tempo para planejar f\u00e9rias ou se recuperar financeiramente entre um show e o outro, j\u00e1 que os ingressos n\u00e3o costumam ser baratos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">2. O cen\u00e1rio regional&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O contexto local tem uma din\u00e2mica pr\u00f3pria. Como falei anteriormente, aqui em Curitiba n\u00e3o temos produtora de shows que traga bandas de outras cidades para c\u00e1 ou leve nossas bandas para fora daqui. Quem fortalece muito o corre local \u00e9 o pessoal da Bruxa Verde, que tem cuidado do tr\u00e2nsito de diversas bandas entre S\u00e3o Paulo, Paran\u00e1 e Santa Catarina, mas nem sempre tem uma produtora viabilizando o corre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi o caso da banda de doom Ode Insone, de Jo\u00e3o Pessoa-PB, que veio \u00e0 regi\u00e3o Sul para participar do festival Bob Rock, que acontece em Dona Emma-SC. Vou falar um pouco da cena catarinense mais adiante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O v\u00f4o deles viria de Jo\u00e3o Pessoa para Curitiba, e daqui eles iriam de van para o festival. Com toda a raz\u00e3o, optaram por fazer da parada um evento e produziram, eles mesmos, todo o rol\u00ea, que aconteceu no Basement em mar\u00e7o. Da minha parte, ajudei no que pude indicando contatos de casas, servi\u00e7os e outras bandas para o line-up, especialmente porque acho admir\u00e1vel essa garra que o pessoal do underground tem para fazer tudo na base do DIY.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra banda que veio para c\u00e1 num puta esquema de guerrilha foi a Sangue de Bode, que veio dirigindo do Rio de Janeiro para uma s\u00e9rie de 15 shows em diferentes cidades entre RJ, SP, PR e SC. Curitiba foi a \u00faltima parada, em 29\/05, e eles tavam s\u00f3 a capa da gaita. A turn\u00ea come\u00e7ou ainda em abril, e logo depois do show no Lado B eles tocaram dirigindo de volta para o Rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o tem como n\u00e3o respeitar a paix\u00e3o de quem t\u00e1 no underground.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se com o apoio da Bruxa Verde j\u00e1 foi essa guerrilha toda imagina pro pessoal que faz tudo por conta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso tamb\u00e9m n\u00e3o tiro a raz\u00e3o de bandas que optam por n\u00e3o parar em locais em que n\u00e3o haja ningu\u00e9m para bancar a produ\u00e7\u00e3o local.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um exemplo recente foi a Lux\u00faria de Lilith, que tocou em Floripa, em FUCKING CRICI\u00daMA e Balne\u00e1rio Cambori\u00fa em SC, mas n\u00e3o botou os pezinhos em Curitiba. Ou Ophiolatry, que fez show \u00fanico em Foz do Igua\u00e7u-PR. Ou o Violator, que deve fazer show \u00fanico em Cascavel-PR. Ainda tem o show do Aeternus e Centinex, produzido pela Tumba, de SP, que acontecer\u00e1 em Foz e em Londrina-PR, mas nada de Curitiba.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">3. O individualismo do cen\u00e1rio curitibano<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, temos Curitiba: a eterna quinta comarca da prov\u00edncia de S\u00e3o Paulo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aqui, j\u00e1 h\u00e1 v\u00e1rios meses n\u00e3o acontece nenhum show de metal extremo, mas o restante da agenda de shows para 2026 at\u00e9 que est\u00e1 agitado: Ereboros em setembro; Amorphis e Black Label Society em outubro; Six Feet Under em novembro, Opeth, anunciado para novembro, exatamente no mesmo dia e hor\u00e1rio em que Benediction se apresentar\u00e1 em outro local; em dezembro, Testament retorna \u00e0 cidade ap\u00f3s um ano, tendo como convidados Municipal Waste e Immolation \u2013 imperd\u00edvel!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, n\u00e3o, n\u00e3o tem absolutamente nada de black ou de doom metal no horizonte por aqui. Nos \u00faltimos meses, s\u00f3 as bandas do Angraverso t\u00eam lembrado da exist\u00eancia de Curitiba, onde sempre encontram casa cheia no Hard Rock Caf\u00e9 e no Stage Garden. Isso s\u00f3 corrobora minha hip\u00f3tese de que Curitiba tem, sim, p\u00fablico de metal &#8211; Angra e Iron Maiden praticamente moram aqui, n\u00e9 &#8211; mas n\u00e3o tem p\u00fablico underground.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nem venha dizer que metal \u00e9, como um todo, um g\u00eanero underground, porque o p\u00fablico que esgotou em poucas horas os ingressos para o Iron Maiden no est\u00e1dio do Atl\u00e9tico n\u00e3o \u00e9, absolutamente, o mesmo que ir\u00e1 ao basement assistir o <s>meu xuxuzinho<\/s> Ereboros no Basement.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse ponto que tocamos na minha tese central com esse trabalho de pesquisa sobre o rol\u00ea do metal em Curitiba: muito do que eu observo sobre o consumo do metal como m\u00fasica e cultura se d\u00e1 na chave da <em>performance de g\u00eanero.<\/em>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Explico: o consumo do metal no cen\u00e1rio cultural curitibano revela, sim, subjetividades relacionadas \u00e0 est\u00e9tica e ao gosto musical, mas, al\u00e9m disso, revela comportamentos reiterados que constroem uma encena\u00e7\u00e3o de um padr\u00e3o idealizado de g\u00eanero &#8211; em especial, de masculinidade &#8211; que \u00e9 atravessado por marcadores de ra\u00e7a e classe social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 a preval\u00eancia desse consumo perform\u00e1tico que faz de Curitiba um cen\u00e1rio f\u00e9rtil para shows caros do metal mainstream, como esses que exemplifiquei logo acima, al\u00e9m de bandas muito grandes mais pr\u00f3ximas do metal extremo, como foi o caso de Cradle of Filth e Behemoth que tocaram aqui no \u00faltimo ano, e de Testament, que retornar\u00e1 em breve. Em comum, todos esses shows t\u00eam a realiza\u00e7\u00e3o feita por uma produtora de postura abertamente elitizada, com ingressos a pre\u00e7os acima da m\u00e9dia e separa\u00e7\u00e3o entre pista comum e pista premium; uma forma de exclusivizar &#8211; no sentido de classificar &#8211; a experiencia que o f\u00e3 pode ou n\u00e3o acessar com base em seu poder aquisitivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o estou fazendo ju\u00edzo de valor dessa pr\u00e1tica que acabei de descrever, mas considero que isso amarra como o que discutimos no in\u00edcio do texto, sobre capitalizar sobre a paix\u00e3o e a fidelidade do p\u00fablico latino-americano em geral, com o \u201cplus a mais\u201d de mexer com a disposi\u00e7\u00e3o ostentat\u00f3ria de um p\u00fablico que anseia por se <em>diferenciar<\/em> &#8211; e est\u00e1 disposto a pagar por isso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">4. Outras articula\u00e7\u00f5es \u2013 o underground&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, ainda que hajam intersec\u00e7\u00f5es significativas, o p\u00fablico do metal mainstream n\u00e3o \u00e9 o mesmo p\u00fablico do underground. O p\u00fablico do underground n\u00e3o tem denominador comum, como \u00e9 o caso da disposi\u00e7\u00e3o ostentat\u00f3ria do consumidor do mainstream. Na verdade, eu observo que quanto mais underground o rol\u00ea, mais <em>judiado pela vida (kkkk)<\/em> \u00e9 o p\u00fablico &#8211; algo que, naturalmente, inclui o aspecto socioecon\u00f4mico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por essa e por outras raz\u00f5es, acredito que seria l\u00edcito afirmar que <strong><em>o f\u00e3 do metal extremo n\u00e3o \u00e9 um cliente<\/em><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o haja consumo no underground extremo, nem que n\u00e3o haja gente com muita grana que curte o estilo. \u00c9 que, quer ele se aperceba ou n\u00e3o, o p\u00fablico do underground \u00e9 em sua maioria de classe trabalhadora, e \u00e9, ou se sente, de alguma forma marginalizado por uma sociedade de consumo que \u00e9 branca, crist\u00e3 e hiper excludente. N\u00e3o acredito, afinal, que algu\u00e9m se aproxime do black metal ou do crust punk, por exemplo, porque est\u00e1 contente com a pr\u00f3pria exist\u00eancia na sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, o que o underground facilita \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de articula\u00e7\u00f5es e sociabilidades que n\u00e3o t\u00eam o consumo como finalidade, mas encontram um sentido comum no compartilhamento da emo\u00e7\u00e3o intensa &#8211; seja a paix\u00e3o ou o \u00f3dio &#8211; por meio da m\u00fasica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo isso \u00e9 muito bonito, muito rom\u00e2ntico, mas produzir shows e turn\u00eas \u00e9 um neg\u00f3cio CARO.&nbsp;Eu diria que tamb\u00e9m \u00e9 incrivelmente trabalhoso, mas trabalho tamb\u00e9m \u00e9 custo, tanto humano quanto monet\u00e1rio, o que s\u00f3 vem refor\u00e7ar o qu\u00e3o caro \u00e9 todo esse rol\u00ea de produ\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o o cen\u00e1rio que se desenha \u00e9 o seguinte: nos \u00faltimos anos cada vez mais bandas underground estrangeiras t\u00eam vindo ao Brasil; elas costumam vir, a maioria, na mesma \u00e9poca do ano e isso \u00e9 bacana porque movimenta tamb\u00e9m a cena para bandas e produtoras locais. Por outro lado, a frequ\u00eancia acumulada desses shows coloca press\u00e3o financeira sobre os f\u00e3s que j\u00e1 v\u00eam sofrendo, especialmente desde a pandemia, com o progressivo aniquilamento do poder de compra da classe trabalhadora. <em>Ali\u00e1s, um par\u00eantese: esse \u00e9 um fen\u00f4meno global. Do contr\u00e1rio, as ag\u00eancias europeias e norte-americanas dificilmente olhariam com tamanha aten\u00e7\u00e3o para o p\u00fablico\/mercado latino-americano<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, voltando: Confrontado com o fato de ter que escolher a qual show ir, especialmente quando isso envolve custos de viagem, estadia e aus\u00eancia do trabalho, o f\u00e3 dificilmente dar\u00e1 prioridade a assistir bandas nacionais e\/ou bandas estrangeiras menos conhecidas. \u00c9 aqui que pesa muito o fato de Curitiba ter um p\u00fablico underground reduzido e financeiramente desgastado: ainda que a cidade seja refer\u00eancia de shows para o interior do PR e SC, vide shows um pouco maiores que continuam acontecendo por aqui, o p\u00fablico acaba n\u00e3o sendo suficiente para que os shows d\u00eaem \u00e0s produtoras o retorno financeiro necess\u00e1rio para cobrir os custos de produ\u00e7\u00e3o + adiantar parte dos custos dos pr\u00f3ximos eventos. Acaba sendo mais garantido fazer os shows apenas em S\u00e3o Paulo, onde o volume de p\u00fablico \u00e9 muito maior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, esgotou-se o cen\u00e1rio de shows de metal extremo em Curitiba. Sem os eventos realizados por produtoras de fora, tamb\u00e9m morre o espa\u00e7o para bandas locais &#8211; com exce\u00e7\u00e3o do Lado B v\u00e9io de guerra e das excurs\u00f5es para festivais de pequeno porte no interior de Santa Catarina. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O interior catarinense tem uma tradi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria de festivais de metal extremo. Alguns, como o Bob Rock (em Dona Emma-SC, cidade com pouco mais de 4 mil habitantes) e o Otac\u00edlio Rock Fest (em Otac\u00edlio Costa-SC, que tem aproximadamente 17 mil habitantes), j\u00e1 acontecem h\u00e1 v\u00e1rios anos e costumam ter importantes bandas nacionais como headliners. Outros festivais costumam trazer entre 4 e 10 bandas para clubes em cidades como Pomerode-SC (~37 mil habitantes) e Rio Negrinho-SC (~40 mil habitantes). <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse cen\u00e1rio dos rol\u00eas em cidades menores exige do p\u00fablico uma articula\u00e7\u00e3o que a cena curitibana simplesmente n\u00e3o tem. Ela at\u00e9 existe, vide o fato de sempre ter excurs\u00f5es que v\u00e3o daqui para SC e SP, mas dentro da cidade a coes\u00e3o \u00e9 praticamente inexistente, o que, somado \u00e0 aus\u00eancia de produtoras locais voltadas para o underground, fomenta a depend\u00eancia de turn\u00eas nacionais para aquecer a cena tamb\u00e9m para bandas locais. Com o esgotamento desse mercado, vem a estagna\u00e7\u00e3o cultural do metal underground em Curitiba.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Considera\u00e7\u00f5es finais<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A explos\u00e3o de shows do p\u00f3s-pandemia arrefeceu, e o cen\u00e1rio sob a poeira n\u00e3o \u00e9 dos melhores. O metal extremo em Curitiba entrou em dorm\u00eancia, dando raros sinais de atividade quando bares de cover abrem espa\u00e7o para bandas autorais, e quando bandas curitibanas se deslocam para os festivais alternativos em Santa Catarina por n\u00e3o poder ou, simplesmente, n\u00e3o querer cavar na unha um espa\u00e7o de representa\u00e7\u00e3o cuja legitimidade \u00e9 constantemente disputada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chega uma hora que cansa mesmo. A sobreviv\u00eancia est\u00e1, por si s\u00f3, bastante dif\u00edcil e j\u00e1 n\u00e3o sobra muito espa\u00e7o para viver de fato. Resta, agora, planejar <s>as d\u00edvidas<\/s> os gastos com muito mais cuidado e encarar, ocasionalmente, uma viagem para ir nos rol\u00eas que a gente curte. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o fa\u00e7o ideia do qu\u00e3o longo ser\u00e1 esse per\u00edodo de baixa, mas n\u00e3o creio estar perdido o espa\u00e7o conquistado pelo underground no cen\u00e1rio musical curitibano. Talvez at\u00e9 seja uma oportunidade de articular com o pessoal de outras cenas, articular com o pessoal que tamb\u00e9m t\u00e1 nesse corre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, aiai, como est\u00e1 fazendo falta um showzinho de black metal!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos vemos no pr\u00f3ximo rol\u00ea. <br><strong>Vida longa ao underground!<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faz tempo que n\u00e3o publico nada, mas acho foda entupir o blog de releases de shows porque n\u00e3o s\u00e3o materiais produzidos por mim. 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