O show do Brujeria aconteceu já há três semanas e só agora consegui sentar para escrever sobre ele. Bom, antes tarde do que nunca, não?
Já que um tempo considerável se passou entre o show e a escrita, vou fazer um exercício, e convido quem me lê a fazer o mesmo: Que tipo de características são mais marcantes em um evento? Sobre quais temas vale à pena escrever?
Para responder a essa pergunta vou dividir minhas observações em três categorias gerais, e cada categoria em alguns tópicos.
PRODUÇÃO
- Jokers continua sendo, na minha opinião o melhor lugar para shows em Curitiba. A casa abre cedo por causa do happy hour, mas o espaço do show abriu um pouco mais tarde. O show, previsto para as 20h, iniciou às 21h.
- Esse atraso até foi bom para mim, deu tempo de encontrar o pessoal e comer alguma coisa tranquila antes da banda subir ao palco. Por outro lado, evento no meio da semana quebra as pernas do proletariado metaleiro: existe a preocupação em calcular muito bem tudo o que se faz, já que as consequências sempre aparecem no dia seguinte.
- Tenho achado interessantes as produções mais recentes da Estética Torta, em especial as turnês de Anette Olzon e Brujeria pelo Brasil, porque elas contaram com várias datas e passagens por diferentes cidades. Isso parece ir na contramão da tendência de turnês enxutas, com apresentações únicas em São Paulo. Sorte a nossa 🙂
- A qualidade do som estava espetacular!!! Jokers nunca decepciona nesse quesito, mas dessa vez os engenheiros de som mandaram bem demais. Foi legal ver um dos rapazes fazendo os ajustes necessários em uma mesa digital, no meio da pista. Isso fez toda a diferença na experiência do show. Fica essa dica aí pro pessoal do Tork, pelo amor de deus, gente.
BANDA
- O Jeff Walker, baixista do Carcass, com seu personagem El Cynico foi absolutamente o ponto alto para mim. Não é só um músico fodasso, mas estava muito fofo naquele look branco de cowboy. Ele se juntou à banda em 2006 e participou das gravações de Pocho Aztlán (2016). Embora morra de vontade, nunca consegui ver Carcass ao vivo (o último show deles em Curitiba custava uma fortuna), então foi legal estar a apenas um grau de separação dessa banda.
- Aparentemente, Brujerizmo é o álbum mais famoso da banda, mas acho que o público curtiu mais a porrada das músicas dos anos 90, como La Migra e Matando Güeros. A dobradinha Consejos Narcos/Marijuana fechou o show com energia e bom humor, convidando os maconheiros na plateia a acenderem seus becks. O engraçado de não ser ~maconhista~ foi poder chapar de leve por tabela haha
- Essa turnê inteira é uma homenagem aos vocalistas Pinche Peach e Juan Brujo, falecidos no ano passado. Um pouco antes do final do final do show, o vocalista atual disse algumas palavras em homenagem aos finados e apresentou os membros da banda de maneira estapafúrdia – perguntando ao público qual o nome (o pseudônimo, no caso) de cada músico. Evidente que a galera na pista não sabia. O El Sangrón (procurei o nome dele depois) pareceu não se abalar mas rolou um desconforto bem engraçado na plateia.
PÚBLICO
- A análise demográfica baseada no Olhômetro™️ foi consideravelmente diferente dos últimos dois eventos. Acredito que tenha, pesado, principalmente, os R$ 150 do ingresso e o show acontecer numa terça-feira. A diferença na proporção entre homens e mulheres estava ainda mais gritante que o habitual, cerca de 95% para 5%, e a faixa-etária também estava mais alta, com predominância dos 35 a 50 anos.
- Vejo isso como reflexo da divisão sexual do trabalho reprodutivo, visto que mulheres na faixa dos 30 e poucos/40 e poucos costumam ter filhos em idade escolar. A alta representação desse público tiozão sugere que muitos caras foram lá curtir a banda e “deixaram a patroa em casa”.
- Esse recorte bastante homogêneo me deixou um pouco aliviada. Situações como o assédio que passei no show do Behemoth e o chute que levei no show do Flagelador tendem a acontecer em eventos mais muvucados, com público de todo canto. Não estou dizendo que eventos com diversidade de público sejam negativos e/ou arriscados, mas a homogeneidade do público, nesse caso, pressupõe uma maior previsibilidade de comportamentos.
- Tinha um casal perto de mim na pista em que a moça entrou no mosh, seguida, um pouco depois, pelo companheiro. Casal que mosha junto, continua junto 🙂
- Uma amiga comentou que esse show era um presente de aniversário para a adolescente interior dela. Acho que resumiu bem um sentimento comum entre o público desse rolê – uma nostalgia carregada pela energia da adolescência.
À guisa de uma coda…
Terminando agora o texto me surpreendi por conseguir detalhar tantas observações de memória. Evidente que os aspectos que me chamam mais a atenção sempre dizem respeito às dinâmicas sociais entre o público e às interações com a banda, mas, em certa medida, me surpreender perceber o quanto isso media minha percepção e experiência em cada show. Ultimamente, tenho recebido comentários negativos em que os autores – sempre homens – menosprezam a qualidade da minha escrita por eu não tratar exclusivamente das bandas, do palco e do som.
A recorrência desse tipo de comentário tem me feito pensar o quanto deve ser difícil escrever uma boa resenha. Vejo com muita frequência resenhas de show publicadas no Instagram com uma péssima legibilidade, em geral com os textos colados nos cards de imagens em postagens em formato de carrossel. Embora surja de uma contingência evidente do formato da mídia, não consigo deixar de entender esse tipo de texto como algo feito por quem não gosta de escrever para quem não gosta de ler. Isso me faz ter ainda maior admiração pelo trabalho de quem se dedica a analisar algo tão difícil de definir como é a música para traduzi-la na materialidade das palavras.
Por isso defendo que a escrita é o artesanato de/sobre um tema, mas também da/sobre a construção de si mesmo, e convido para encerrar esse diário o sociólogo estadunidense C. Wright Mills que afirma:
O conhecimento é uma escolha tanto de um modo de vida quanto de uma carreira; quer o saiba ou não, o trabalhador intelectual forma-se a si próprio à medida que trabalha para o aperfeiçoamento de seu ofício; para realizar suas próprias potencialidades, e quaisquer oportunidades que surjam em seu caminho, ele constrói um caráter que tem como núcleo as qualidades do bom trabalhador.
Referência: MILLS, C. Wright. Sobre o artesanato intelectual e outros ensaios. Rio de Janeiro.. Jorge Zahar Ed., 2009. p. 22.


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