Para compreender a relevância do Harakiri for the Sky e sua relação com a evolução do post-black metal, é necessário revisitar as bases do gênero que lhe deu origem. O black metal tradicional, especialmente sua Segunda Onda nos anos 1990, consolidou-se como um movimento sonoro e ideológico marcado pela rigidez. Seus elementos definidores – como os blast beats, os vocais guturais e a produção propositalmente crua – buscavam criar uma atmosfera opressiva, enquanto sua ideologia se apoiava na misantropia, no niilismo e na rejeição à religião cristã. Esse conjunto não era apenas musical, mas também uma postura existencial, uma rebelião contra estruturas sociais e políticas.
Já o prefixo “post-”, presente em movimentos como post-rock ou pós-punk, indica desconstrução e reflexão crítica. No caso do post-black metal, essa desconstrução não significa abandono total das ferramentas sonoras originais, mas sim uma reinterpretação que desloca o foco da agressão para a textura e da ideologia para a introspecção. A mudança mais significativa está no eixo do conflito: enquanto o black metal tradicional externaliza sua hostilidade contra sociedade e religião, o post-black metal internaliza essa tensão, transformando-a em um diálogo com a própria psique. Depressão, ansiedade, perda e desespero existencial tornam-se temas centrais. A rebelião política cede espaço à exploração psicológica.
Nesse contexto, Harakiri for the Sky tem se destacado como um dos nomes de maior destaque dessa (r)evolução. Formada na Áustria em 2011, a banda nasceu como um projeto de estúdio idealizado por Matthias “MS” Sollak e Michael “JJ” Kogler. Essa configuração explica a complexidade sonora que caracteriza sua obra: camadas instrumentais densas e uma abordagem que dialoga com o shoegaze e a música orquestral. Enquanto a dupla transforma suas visões em realidade no estúdio, músicos convidados contribuem para dar corpo ao projeto nas apresentações ao vivo.
O nome da banda sintetiza sua filosofia estética: “Harakiri”, o suicídio ritualístico, evoca dor e sacrifício, enquanto “for the Sky” sugere transcendência e beleza transcedental. Essa combinação revela uma tensão que é central na lírica da banda: a autodestruição surge, assim, como meio de alcançar um estado superior.
A música do Harakiri for the Sky articula certa dicotomia entre vocais e instrumentação. Enquanto os vocais expressam sofrimento, as composições apresentam melodias expansivas e crescendos que sugerem libertação. Essa estrutura converte sofrimento em experiência estética, evitando a estagnação na tristeza. A discografia, composta por seis álbuns, refina essa fórmula ao longo do tempo. O álbum Arson, de 2018, consolidou a identidade emocional do grupo, embora tenha recebido críticas por certa monotonia. Já Mære ampliou a paleta sonora e incorporou influências de post-hardcore, mas sua longa duração gerou debates sobre excesso. O álbum mais recente, Scorched Earth, indica maturidade e busca transcender os limites do gênero, incluindo colaborações e releituras.
Embora o post-black metal e o blackgaze ainda sejam muito nichados aqui no Brasil, é possível perceber sua influência, tanto na recepção quanto na produção local. Uma lista publicada pelo site Whiplash.net em 2023 destacou cinco projetos nacionais que exploram essas vertentes: Saddest, com o álbum The Inevitable; Nostalgia, com Lost…; Gray Souvenirs, com This Everlasting Despondency; Hermerienak, com Aurora, que canta em português; e Daydream, com Primavera. Além dessas, outros projetos como Bare Knuckle e Pacta Corvina, de RABM (Red Anarchist Black Metal), sugerem diversidade na construção da cena. Embora pontual, o Post Black Metal é um movimento em expansão, que dialoga com as tendências internacionais sem perder singularidade.
O braço brasileiro da turnê, Heal Me Latin America, inclui apresentações em Curitiba e outras cidades, reforçando a conexão entre a proposta da banda e um público que reconhece na música um lugar de transformação. A trajetória ascendente de Harakiri for the Sky revela, desse modo, que a (re)invenção do Black Metal não depende da rigidez dos rótulos, mas da capacidade de angústia em promessa de transcendência.

SERVIÇO
Harakiri for the Sky em Curitiba
Data: 8 de novembro de 2025 (sábado)
Local: Basement – R. Des. Benvindo Valente, 260 – São Francisco, Curitiba
Horário: 19h00
Ingressos: A partir de R$140.
Venda online: sympla.com.br/evento/harakiri-for-the-sky-em-curitiba/3059619

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