O blog, em sua iteração como curitibametal.com, completou seu primeiro ano ontem, por isso acredito ser conveniente compartilhar um pouco da minha experiência como autora desse diário de pesquisa. Primeiro vou falar um pouco do momento que estou vivendo atualmente e como isso se relaciona com a minha vivência na “cena”, depois comento um pouco como a experiência do blog tem tido desdobramentos na minha vida pessoal, e, ao longo do texto, vou tecendo algumas considerações gerais sobre os shows que assisti.

A intensa agenda de shows de metal extremo de 2025 é algo que pode ser considerado fora da curva. Já faz dois anos que escrevo – demorei para começar a publicar – mas lá no início os shows eram mais escassos e havia um intervalo considerável de tempo entre um e outro. Acontecia um show por mês, às vezes a cada dois meses, outras vezes se passavam alguns meses sem sinal de atividade no role. Esse espaçamento de tempo foi fundamental para o amadurecimento de aspectos teóricos e analíticos dessa pesquisa… até que a coisa engrenou!

Solicitei meu primeiro credenciamento como imprensa em fevereiro, para o show do Rotting Christ, e não canso de agradecer a Clovis e Kenia da Acesso Music por me darem essa primeira oportunidade de observar a dinâmica de um evento tão marcante de um outro ponto de vista: o da comunicação. Seguiram-se alguns outros shows surpreendentes, como o festival em que tocou o Dark Funeral, Archgoat (para mim um dos melhores do ano), Pentagram (que a querida da Elaine me convidou para ir), Ancient, que superou em muito as minhas expectativas… aí comecei dois projetos grandes como freelancer que tinham praticamente o mesmo cronograma. No meio desse crescendo, o blog teve que parar.

Foi no dia da show da Crypta no Stage Garden que consegui retomar a escrita. Não pude estar no show, a data foi só uma coincidência. Voltei a usar o instagram para articular com as bandas, os fãs e os produtores dos eventos, e no fim do mesmo mês pude ver meu xodozinho do blackened death metal nacional que é o Ereboros kkkk A experiência desse evento foi muito marcante para mim porque foi a primeira oportunidade que tive de interagir com as gurias que frequentam a cena extrema aqui em Curitiba. Para minha sorte, todas foram gentis e acolhedoras, e tem sido um prazer vivenciar de forma coletiva a experiência de ser uma mulher sozinha (no sentido de n ser casal) no underground.

Na medida em que eu me estabilizava, agosto já entrou com uma lapada de shows foda: Testament e Uada com Cradle of Filth. Também vieram a Curitiba as gigantes nacionais Eskröta e Uganga. Não satisfeitos, ainda meteram em setembro o Krisiun com Malevolent Creation no Stage e no dia seguinte Deicide com Behemoth no Tork. Não sei se cometi alguma gafe ou se o cara acha que tenho poucos seguidores, mas o assessor de alguns desses shows gringos recusou categoricamente meus pedidos de credenciamento. Não consegui ver os shows de um bom lugar, mas foi antropologicamente interessante, ainda que nojento pra krl, sofrer assédio na pista. Mas eu sou uma cientista, e consegui tirar disso alguns insights sobre dinâmicas de classe e violência de gênero no espaço público. Afinal, tudo são dados.

Inclusive, o instagram do blog ganhou tração considerável após a publicação desse diário de campo, e fiquei contente por perceber que os seguidores que acumulei organicamente durante o período realmente lêem o que eu escrevo!!! Sempre achei que os textos passariam batido, até porque blog de texto é uma mídia jurássica. Fiquei muito feliz não só pela oportunidade de conversar e compreender os pontos de vista de muita gente nova, mas por perceber que nem todo mundo quer conteúdo mastigado em 1 minuto para caber no tiktok.

Aliás, sabia que cada diário publicado aqui leva até 4h para ser escrito? Nem vejo esse tempo passar, mas o difícil ultimamente tem sido ter 4h para alguma coisa.
Depois do show do Flageladör, aquele em que levei um chute na maldade quando começou o mosh, escrevi 4 publicações na forma de artigo: sobre a turnê de Groza e Outlaw, sobre Brujeria, sobre Velho e Podridão e sobre Harakiri for the Sky. Só as crônicas nem sempre dão conta de aprofundar as análises que elaboro a partir da relação da banda com o cenário local e global, e a escrita tem sido fundamental para desenvolver melhor a observação crítica. A resposta do público foi incrivelmente incrível, e, mesmo quando lancei umas ideias incompletas no insta sobre música e cultura política pude ter conversas incríveis com várias pessoas sobre diferentes perspectivas sobre o tema. Rascunhei até um projeto de segundo doutorado ou pós-doc a respeito.

De um modo geral, essa interação com pessoas que vêm de meios completamente diferentes e pensam de maneira muito diferente de mim tem sido a maior riqueza que o blog tem me trazido, e minha maior motivação para continuar. Além disso, estar presente em shows dos mais diversos tem me ajudado muito a refazer meu círculo social, que morreu quase completamente nos últimos anos. Meus amigos mais próximos mudaram de estado e até de país. As gurias do doutorado foram cada uma trabalhar em um canto. Quem ficou casou e sumiu. Nesse cenário, o blog tem sido a única vida social que tenho tido e, talvez por isso, apesar da escassez de tempo, eu faça tanta questão de continuar indo nos shows, divulgando e tudo mais.

A maior recompensa por esse esforço foi, certamente, meu credenciamento como imprensa para o show do Mayhem. Vou deixar para narrar essa experiência em outro post porque esse já está mais longo que a média, mas encerro esse primeiro ano de blog muito satisfeita com a ampliação das perspectivas sobre as subjetividades do role. Não está nada fácil encontrar equilíbrio entre dois empregos, faculdade e vida pessoal, e creio que as consequências dessa rotina extenuante têm transparecido nas postagens recentes, ou na falta delas. Mas o saldo majoritariamente positivo da experiência do último ano me motivam a continuar apoiando o metal extremo, e analisando crítica e continuamente minha experiência como mulher negra no underground curitibano.

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