Quando a turnê de 40 anos do Mayhem foi anunciada para a América Latina eu não pensei nada. Para mim era certo que não haveria data no Brasil depois daquela fiasqueira que armaram contra os shows da banda para ganho político na turnê de 2023.

Na verdade eu esperava para ver o Mayhem desde 2017, quando eles estiveram em Curitiba tocando a integra de De Mysteris Dom Sathanas, mas não conseguir ir porque eu era uma bolsista fudida de mestrado e já tinha gastado o que não tinha para ir num congresso em que me inscrevi com 1 ano de antecedência. O voo de volta para casa foi dolorido, porque nele me acompanhavam meia dúzia de metaleiros se deslocando até cwb para o show.

A confirmação de uma única data no Brasil para a turnê desse ano me deu um aperto no coração porque sabia da possibilidade que aquela galera fode-esquema se manifestasse outra vez. Aliás, me chateia que tenha sido um pessoal de esquerda quem puxou o boicote contra o Mayhem. Pra mim isso é comportamento de crente bolsominion, sabe? Promover ataque institucional contra uma galera que tem zero articulação política – como é o caso dos fãs de metal extremo – é uma forma covarde de obter ganho político, não diferente das reportagens sensacionalistas do Fantástico. 

Enfim, o show foi confirmado para 7 de dezembro na VIP Station, em São Paulo. E como muitos dos shows de bandas FODA que têm acontecido, a data única em SP foi um domingo. Foi assim com Sargeist, com Marduk, com Ulcerate… e vamos combinar que show no domingo nunca é favorável à classe trabalhadora. Especialmente àquela que precisa viajar para ver o show. Tem poucos meses que entrei no meu emprego atual, e eu simplesmente não podia arriscar.

Passei um tempo fazendo as pazes com a ideia de que não veria esse show (não funcionou kkk) até que a Gerunda Produções facilitou meu credenciamento como imprensa para cobertura. Aí não pensei duas vezes e fechei para ir de van com a Metal Devastation Excursões, já que a VIP Station é super fora de mão e eu precisaria bater meu ponto de volta em Curitiba às 9h do dia seguinte. 

Fazia tempo que eu queria escrever sobre um rolê de excursão, mas sou velha e acomodada, por isso morria de medo da dor nas costas e do cheiro de chulé numa uma dessas loucuragens de van. Traumas da juventude, né? peguei minha primeira excursão pra show aos 14 e aos 36 já me habituei às viagens de avião e reservas em hotel. 

Sabe quando tudo dá errado mas dá certo? Foi exatamente o que aconteceu. Saímos do ponto de encontro sabendo que precisaríamos trocar de van porque a primeira estava com problema. A segunda van era bem menos confortável que a segunda, mas nos levou em segurança até a entrada de São Paulo. Éramos 9 ao todo (ninguém tinha chulé, ainda bem) e estávamos preocupados em perder o horário do show por causa de alguns acidentes na estrada. Sim, mais de um.

A faixa etária média estaria por volta de 40+ se não por um rapaz e uma moça um pouco mais novos, que seguiam para o show do Kanonenfieber, que aconteceria no mesmo dia e horário (puta sacanagem!) no Carioca Club. 

Quando entramos em São Paulo a van, que morreu algumas vezes no trajeto, não aguentou o trânsito parado na subida de uma ladeira: a embreagem queimou. Os carros atrás na fila foram desviando um a um, senão por um abençoado que ficou logo atrás. Numa das várias tentativas de engatar a marcha para continuar a subida a van voltou um pouco de ré na descida e encostou no carro dessa criatura. 

Quando a van finalmente conseguiu engatar para subir, o desquerido fechou a van reclamando da batida. O motorista acordou o cara que encostariam para trocar contato tão logo conseguíssemos, finalmente, vencer a pirambeira. Quando paramos o motorista da van foi falar com o cara do carro, mas alguns membros da excursão, curiosos, desceram para acompanhar. Não surpreendentemente o cara do carro deu uma baixada na bola quando os caras tatuados e vestidos de couro desceram hahaha

Mesmo sem embreagem chegamos na VIP Station às 18h, horário em que foi anunciada a abertura da casa. A fila já estava grande e fiquei super feliz de encontrar pessoas conhecidas lá. Encostamos no único bar das redondezas, que fica bem em frente ao local do show e ficamos enrolando algum tempo, porque a abertura da casa atrasou um bocado. Isso por si já era indicativo de que o show atrasaria, o que de fato aconteceu. 

Haviam duas filas, uma para a pista e outra para a vip. Fiquei na fila da vip com uma amiga porque não sabia onde eu entraria e, para ser sincera, até o último segundo eu estava com o cu na mão com medo de não estar na lista credenciada como imprensa. Entrei bastante aliviada, e, como não me deixaram subir para o mezanino onde ficava a área vip, fui para a pista e peguei um lugar pertinho da grade. Era um lugar realmente muito bom, e deu uma preocupaçãozinha sair dali para me informar sobre o acesso que a pulseira de imprensa me garantiria. Valeu a pena porque à imprensa foi garantido acesso à frente da grade durante as três primeiras músicas para fazer fotos e vídeos. 

Passei à frente da grade e, embora parecesse que o show começaria a qualquer momento, a banda subiria ao palco com 1h de atraso, às 21h. Nesse ínterim fiquei observando o público, o lugar e o pessoal na área de imprensa. 

A VIP Station é uma casa bem espaçosa, com capacidade para cerca de 4 mil pessoas. O público total para o Mayhem parece ter ficado por volta de 3 mil pessoas, talvez um pouco menos, o que garantiu bastante conforto durante todo o espetáculo. O ar condicionado dava conta de todo o local, apesar da onda de calor que se iniciava, e, diferente de certos lugares, não desligaram a ventilação durante o show para forçar aumento do consumo no bar. Gostei, honestidade com o público é fundamental. 

Pelo que pude observar, a proporção de gênero entre o público era algo em torno de 75% homens e 25% mulheres, com uma faixa etária bastante ampla – vi muitos jovens da faixa dos 20 por lá, mas o predomínio realmente é do pessoal dos 40. Algo de que gosto nos shows que vejo em São Paulo também é a maior representatividade de pessoas negras/não-brancas, porque por muito tempo me senti meio alienígena/alienada no rolê do metal por ser negra, ainda que tenha certa passabilidade por não ser retinta. 

Já na frente da grade, onde se concentrava a imprensa credenciada, a proporção era esmagadoramente inversa: muitas mulheres na faixa dos 30, pouquíssimos homens. Acho que de pessoa não-branca só tinha eu. Sempre me sinto um pouco deslocada nesses roles como imprensa porque minha experiência ainda é pouca e porque meu veículo é blog de texto, como faziam os antigos fenícios. Não sou influencer como as gurias que estavam lá nem tenho equipamento profissional de áudio e vídeo. Na verdade eu nunca tinha visto “influencer” de perto e fiquei um pouco assustada com tanto peito de silicone e preenchimento labial. Era só eu, minha bagagem teórica e um celular com a bateria viciada pra dar conta de tanta coisa que acontecia ali ao mesmo tempo.

À medida que o tempo passava e o show demorava a começar foi batendo uma preocupação com a necessidade de bater ponto de volta em Curitiba na manhã seguinte. Até descolei um dia de home office na segunda dia 8/12, mas a excursão já estava paga quando isso aconteceu, então mantive os planos como estavam. No palco estavam montados os instrumentos, duas escadarias, uma de cada lado, que serviriam à cenografia, e algumas colagens de imagens repetiam em loop no telão de fundo acompanhadas de uma vinheta sonora de tom sombrio, que intensificava o clima de suspense no ar. Algumas pessoas já reclamavam da demora quando a banda subiu ao palco, mas todos se calaram quando as luzes foram apagadas e uma introdução em vídeo iniciou no telão. 

A abertura do show, de fato, foi esse vídeo que tinha uma estética grunge muito apurada e narrava por meio de fotografias e vídeos antigos a trajetória da banda desde sua concepção, em 1983, até os dias atuais, preservando alusões aos crimes e polêmicas que contribuíram para consolidar o Mayhem como o maior nome do black metal norueguês e, quiçá, do mundo.

Uma erupção de gritos emergiu do público quando a banda subiu ao palco e, naquele momento, quisera estar ao mesmo tempo tanto em frente ao palco como no meio da galera para observar como o pessoal sentia aquele momento. Eu mesma estava muito impressionada naquele momento por estar ali tão perto daquelas figuras quase míticas – mas tão imperfeitamente humanas – de quem ouvi falar a vida inteira: os guitarristas Teloch e Ghul caracterizados cada um a seu jeito; Hellhammer quase escondido atrás da bateria; o Necrobutcher, único membro da formação original, que nunca imaginei ser um cara tão baixinho (!!!!); e, por fim, a figura inexplicável que é o vocalista Attila Csihar, único membro da banda a portar uma caracterização elaborada, teatral.

Attila é uma figura de um magnetismo sem igual. Claro, todos os membros do Mayhem são músicos de talento e brutalidade sem igual, mas Attila realmente tá além. Além do humano, talvez. Sua voz parece vir não de dentro de um corpo frágil, mas da distância cósmica de eons. Se o inferno existe, é dos gritos de almas condenadas que emana aquela voz. Fiquei absolutamente hipnotizada.

Tentei navegar ali entre o transe e o dever tirando o máximo de fotos possível – alguma haveria de ficar boa – e gravando vídeos sempre que algum dos músicos se aproximava da parte do palco onde consegui me encostar. Mas em diversos momentos me peguei me afastando do palco para bater cabeça, ou apenas encostada no palco com o celular erguido a esmo. As três primeiras músicas vieram e se foram como um suspiro.

O espetáculo se estruturava em três principais blocos organizados em ordem cronológica do mais recente para o mais antigo, e a fluidez da narrativa se deu de modo impecável graças aos vídeos que completavam a paisagem musical com referências históricas e estéticas. Na verdade eu gostaria de saber quem concebeu o documental em vídeo desse show para agradecer pessoalmente por uma abordagem histórica tão sensível, mas ao mesmo tempo tão potente (eu odeio essa palavra): celebrativa sem ser laudatória, reconhecendo o papel de cada sujeito na trajetória da banda sem juízo de valor – sem maquiagem.

Isso é algo que nós historiadores aprendemos desde muito cedo, não incorrer no anacronismo de julgar o passado a partir das lentes do presente. Aqui acho que podemos voltar lá para o início do texto, quando mencionei indiretamente o boicote institucional aos shows do Mayhem por acusação de apologia ao nazismo. Não vou entrar no discurso falacioso de balrogs têm ou não asas separar artista e obra, mas não existem evidências materiais de que a banda promove discurso criminoso (sempre bom lembrar que nazismo é crime) por meio de suas letras, vídeos ou performances ao vivo. O comportamento dos membros ou colaboradores fora da mídia artística cabe à justiça julgar, como de fato já o fez, e, até onde cabe o julgamento das nossas instituições ser um babaca escroto não é crime. Talvez devesse ser, mas esse não é o ponto.

Dei essa volta toda para falar, na verdade, da sensibilidade histórica do vídeo documental em reconhecer os comportamentos problemáticos do passado em seu próprio contexto, sem fazer deles uma bandeira no presente ou fazer tábula rasa da trajetória da banda. Trata-se de reconhecer que crimes aconteceram, que discursos fundados em preconceitos extremos foram propalados, mas não se repetem – nem devem se repetir – no presente. O momento histórico é outro, os membros da banda estão diferentes, o próprio público também se renovou. 

Entretanto, as controvérsias são parte indelével da história que trouxe a banda até aqui. De modo geral, falar de Mayhem sempre levanta um tremendo tribunal histórico e ideológico, e a beleza do vídeo documental foi manter isso como subtexto de todo o espetáculo.

Com uma duração total de 2h20, o bloco que trata da trajetória recente da banda foi o mais longo, justamente por cobrir o período que se estende do final da década de 1990 até os dias atuais. A escolha de começar por esta fase da carreira teve o efeito de construir um contexto sólido de transformações ao longo do tempo, ao mesmo tempo em que construiu momentum para os blocos mais aguardados pelo público: o absoluto brilhantismo das décadas de 1990 e 1980. 

Um vídeo documental sobre o álbum De Mysteris Dom Sathanas (1994) com homenagem ao Dead abriram o segundo bloco do show, dando aos membros da banda tempo para fazer uma troca de figurinos. Antes apenas o Attila tinha trocado de figurino uma ou duas vezes – ele é um espetáculo à parte -, mas dessa vez toda a banda voltou vestindo longas capas pretas com capuzes que lhes cobriam o rosto. O bloco teve quatro músicas e iniciou com o top 1 hit parade do Mayhem (kkkk), Freezing Moon. Um mosh se formou no meio da pista, mesmo a música não sendo tão moshável assim, acho que pela pura emoção de vê-la sendo executada ao vivo. Seguiram-se minha favorita desse disco, Life Eternal, a faixa título, De Mysteris Dom Sathanas, e o bloco encerrou com uma execução bastante emocionante de Funeral Fog, com os vocais do Dead gravados como Back track. Foi muito lindo e tão intensamente emocional quanto só o black metal consegue ser.

Uma versão gravada de Silvester Anfang e um vídeo em memória de Euronymous abriram o último bloco do show, do ep Deathcrush (1987). O vídeo também trouxe fotografias da infância e adolescência dos membros da formação inicial da banda, com um Kjetil Manheim tocando bateria de cabelo tigelinha e o então vocalista, Billy Messiah, com cara de bebezão. Isso lembra minha teoria de que o corpse paint, e, mais recentemente, a moda dos capuzes, surgiu para disfarçar a cara de cabação dos piás das bandas.

Comentário random: a primeira prensagem de Deathcrush saiu com a capa em rosa pink em vez do vermelho sangue que a banda queria. Um dia ainda quero fazer uma camiseta pink por isso, bem barbiezinha kkkkkk

A equipe técnica deu uma ajeitada nos equipamentos enquanto o vídeo passava no telão, e quando as luzes se acenderam o baixista Necrobutcher subiu ao palco para anunciar os convidados especialíssimos da turnê: Manheim e Billy Messiah. Naquele momento o que me chamou a atenção real oficial foi o quão baixinho é o Necrobutcher; o pedestal já estava ajustado para a altura enorme do Billy Messiah e o Necrobutcher fez o anúncio se esticando todo, nas pontas dos pés, para alcançar o microfone. 

Quando Messiah e Manheim tomaram o palco tive a sensação de que ganhara na loteria. Não apenas ver o Mayhem é uma experiência sem igual, como ver os membros da formação original é algo que jamais imaginei que aconteceria. O bloco abriu com a faixa-título, Deathcrush, e senti que o público – especialmente o público mais velho – saiu do corpo quando isso aconteceu. Acho que todo mundo estava meio extasiado pela experiência.

Chainsaw Gutsfuck, uma das faixas favoritas desse ep, foi absolutamente brutal, mas o clima no palco já não era tão solene quanto fora em De Mysteris. Seguiram-se Necrolust e Pure Fucking Armageddon e a atmosfera entre os músicos se tornava cada vez mais leve e amigável, como se todos ali se sentissem adolescentes outra vez. Attila e Hellhammer voltaram ao palco, e o lineup completo da tour parecia saudar a devoção do público com a energia lá em cima. 

Depois disso nem tenho muito o que falar. Encontrei meus colegas de excursão tão embasbacados quanto eu e logo juntamos todo mundo para embarcar na van. A viagem de volta foi silenciosa senão pela playlist infinita (e muito boa, por sinal) de black e death metal de um dos piás, e não tinha ninguém fedendo chulé nem sovaco no caminho de volta. A van foi consertada no período em que estivemos no show e, assim, chegamos em Curitiba por volta das 6h de segunda-feira para encarar aquela tristeza que dá quando termina uma experiência que você sabe que foi incrível. 

Para mim enquanto autora desse blog, essa experiência desvelou ainda outras potencialidades do projeto de pesquisa sobre o rolê do metal extremo, ao mesmo tempo em que destacou a importância das conexões que fiz ao longo de 2025 com tantas outras pessoas que fazem o corre e fortalecem o underground extremo. Aproveito para agradecer novamente à Gerunda Produções e Metal Devastation Excursões por terem viabilizado esse puta rolezão inesquecível. 

Valeu também todo mundo que me acompanhou durante esse ano, continuaremos por aqui pensando vários pensamentos em 2026. Feliz ano novo 🙂

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Uma resposta para “Enfim, Mayhem!”

  1. Avatar de Suélen Goulart
    Suélen Goulart

    Obrigada por esse relato maravilhoso! Realmente foi um momento que ficará guardado na memória para sempre!

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