Ecossistemas de Brutalidade: A Cena Death Metal da Flórida e a Longevidade do Obituary à luz da Turnê Latino-Americana de 2026

A longevidade artística na música extrema é um fenômeno muito interessante sob as perspectivas tanto sociológica como comercial. Gêneros marcados pela transgressão, intensidade física e agressividade sonora tendem a ciclos de vida curtos, limitados pelo desgaste dos músicos e pela instabilidade das subculturas juvenis. No entanto, o Obituary contraria essa expectativa ao manter relevância e integridade estrutural por mais de quatro décadas. A confirmação da turnê Torn Apart Across Latin America para o início de 2026, com apresentação em Curitiba em 22 de fevereiro, reforça a necessidade de examinar os fatores que possibilitaram essa permanência.

Por isso, proponho aqui uma análise que articula a historiografia da cena death metal da Flórida –  fundamentada principalmente no estudo de Marco Swiniartzki, Why Florida? Regional conditions and further development of the “Florida death metal” scene (2021) – com a trajetória empírica da banda. Como tese central, sustento que a longevidade do Obituary decorre de sua formação em um ecossistema singular de “contingência e consolidação” nos anos 1980, bem como de sua capacidade posterior de converter essa experiência em práticas replicáveis apoiadas por uma infraestrutura globalizada na qual o Brasil ocupa posição de grande importância.

O Paradigma da Flórida: Desconstruindo o Ecossistema de Origem

Compreender a resiliência do Obituary em 2026 implica analisar seu contexto de formação. O estudo do historiador alemão Marco Swiniartzki oferece uma chave sociológica para explicar a ascensão da Flórida como uma espécie de “capital mundial do Death Metal”. Diferentemente de cenas urbanas cosmopolitas, o death metal floridiano emergiu em um ambiente suburbano, marcado pelo tédio e pelo conservadorismo regional. O autor ressalta a ausência de uma cena dominante de Thrash Metal na Flórida em meados dos anos 1980, em contraste com a Bay Area (região de San Francisco) ou Nova York. Para o autor, esse vácuo funcionou como uma tabula rasa, permitindo que músicos como John Tardy, Donald Tardy e Trevor Peres desenvolvessem suas ideias sem a pressão hierárquica de uma cena já estabelecida.

Como principal fator de coesão desse cenário em formação surgiu um antagonismo declarado ao glam metal, que à época dominava as rádios e clubes locais. Essa rejeição à estética ultra produzida impulsionou a busca por um som que manifestasse o exato oposto: sujo e visceral. Na esteira de bandas locais que ganharam o mundo, como Savatage e Nasty Savage, o Obituary construiu sua identidade com base no groove e na lentidão, em oposição ao virtuosismo técnico e velocidade tão valorizados por seus contemporâneos, como o Death.

Swiniartzki propõe nove prinripais categorias sociológicas que ajudam a compreender como se deu a consolidação da cena floridiana: laços juvenis locais, ausência de gêneros rígidos, redes globais de trocas de fitas cassete, atração de talentos externos, espaços físicos de convivência, infraestrutura econômica, transformação de amizades em negócios, definição de cânones estéticos próprios e transmissão geracional. Aplicadas ao Obituary, essas categorias evidenciam como a banda se estruturou social e culturalmente desde o início.

A Arquitetura Sonora da Longevidade: O Fator Morrisound

Se a sociologia explica a formação do Obituary, a tecnologia explica sua permanência estética. A cena da Flórida consolidou-se como uma cena de estúdio, centrada no Morrisound Recording. Para o Obituary, o estúdio foi o núcleo de construção de sua identidade sonora.

A parceria com o produtor Scott Burns também foi um ponto fundamental para a banda, pois, ao gravar Slowly We Rot (1989), com recursos limitados, Burns priorizou a captura da energia ao vivo, enfatizando graves e imperfeições controladas, em vez de adequar o som a padrões comerciais na pós produção. O resultado foi uma assinatura sonora marcada por guitarras graves, bateria orgânica e a voz de John Tardy tratada como uma espécie de elemento percussivo, mais fonético do que lírico.

Conexão Brasil: Um Espelho no Hemisfério Sul?

A relação do Obituary com o Brasil é estrutural e histórica. As redes de tape trading conectaram, desde os anos 1980, as cenas da Flórida e do Brasil, especialmente Belo Horizonte e São Paulo. Nesse contexto, o Sepultura rompeu o isolamento cultural brasileiro por meio dessas mesmas redes. O lançamento quase simultâneo de Beneath the Remains e Slowly We Rot em 1989 pela Roadrunner Records consolidou um vínculo duradouro entre as bandas, ambas vistas como o “outro” exótico pelos mercados do norte global.

Reconhecido por sua intensidade, o público brasileiro também foi refúgio para a banda em períodos de retração comercial nos EUA e na Europa. A escolha de Curitiba e do Tork n’ Roll para o show de 22 de fevereiro de 2026 reflete a maturação da infraestrutura local de eventos: ingressos entre R$ 160,00 e R$ 360,00 posicionam o show como um produto premium voltado a um público adulto e financeiramente estável, enquanto a produção especializada confirma a profissionalização do death metal como lazer de uma classe média consolidada.

A Crise dos Anos 90 e o Hiato como Estratégia

A longevidade do Obituary não seguiu, entretanto, um percurso linear. A banda enfrentou uma “crise de saturação” conforme descrito por Swiniartzki, intensificada em meados dos anos 1990. Entre 1993 e 1997, a proliferação comercial do death metal  fez cair as vendas e o interesse das gravadoras, que passaram a priorizar o frescor do grunge e do nu-metal. Nesse contexto, World Demise (1994) e Back from the Dead (1997) foram lançados sob forte pressão comercial, com turnês exaustivas que provocaram o desgaste das relações internas da banda.

Em vez de insistir em lançamentos pouco inspirados ou em mudanças estilísticas oportunistas, o Obituary optou, então, pela separação em 1997. O hiato afastou os membros do ambiente saturado da indústria. Nesse período, Donald Tardy integrou a banda de Andrew W.K., atuando em festivais mainstream e programas de TV, experiência que ampliou sua visão sobre performance e profissionalismo fora do circuito do death metal.
Quando a banda retornou em 2003, encontrou uma cena marcada pela nostalgia e o revival, possibilitando ao Obituary reassumir sua posição não como relíquia do passado, mas como referência absoluta.

Turnê 2026: Consolidação e Tradição

Setlists recentes indicam uma curadoria equilibrada entre nostalgia e afirmação de relevância contemporânea. O repertório clássico inclui faixas como Slowly we Rot, Cause of Death e Chopped in Half, que evocam a era Morrisound. Ao mesmo tempo, músicas de Dying of Everything (2023), como The Wrong Time e Barely Alive, atualizam a vitalidade criativa da banda. A instrumental “Redneck Stomp”, por fim, já é marca da abertura dos shows, criando o clima perfeito para os fãs curtirem a banda.

A própria escolha do Tork n’ Roll como local do show reflete a demografia atual do metal no Brasil: o público envelheceu junto com a banda e demanda conforto, boa acústica e serviços adequados. A brutalidade sonora permanece, mas o ambiente de consumo se tornou mais sofisticado, atestando a integração do metal ao mercado cultural.

Considerações Finais

De modo geral, relação entre a análise histórica proposta por Swiniartzki e a trajetória do Obituary pode ser sintetizada em três vetores. Primeiro, a origem em um contexto de contingência permitiu a construção de uma identidade original, baseada em um estilo musical que ia na contramão do que se tinha como comercial à época. Segundo, a infraestrutura técnica local garantiu qualidade em “nível exportação” desde o início, facilitando a inserção em mercados crescentes como o brasileiro. Terceiro, a gestão consciente da saturação, materializada no hiato entre 1997 e 2003 e na posterior retomada da carreira, preservou o capital simbólico da banda.

Concluo, assim, que a apresentação do Obituary em Curitiba, que acontecerá em 22/02/2026, é parte de um complexo processo histórico, uma vez que a trajetória da banda confirma as teses de Swiniartzki sobre a capacidade de cenas regionais, sustentadas pela infraestrutura local, gerarem fenômenos culturais duradouros. Somada à qualidade musical, a habilidade de operar dentro dessas dinâmicas de formação e consolidação de diferentes cenas que permitiu ao Obituary transformar a contingência da Flórida dos anos 1980 em uma tradição profissionalizada no século XXI, mantendo uma relação historicamente consolidada com o público brasileiro.

Obituary em Curitiba

Data: Domingo, 22/02/2026
Local: Tork n’Roll – Av. Mal. Floriano Peixoto, 1695 – Rebouças
Ingressos: https://101tickets.com.br/events/details/Obituary-em-Curitiba

Referência bibliográfica

SWINIARTZKI, Marco. Why Florida? Regional conditions and further development of the “Florida death metal” scene and the local public response (1984–1994). Journal of Popular Music Studies, v. 33, n. 3, p. 168–193, 1 set. 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1525/jpms.2021.33.3.168. Acesso em: 31 jan. 2026.

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