Faz tempo que não publico nada, mas acho foda entupir o blog de releases de shows porque não são materiais produzidos por mim. E por mais que esses releases tenham o objetivo de servir como base para algum material autoral, minha criatividade anda tão em baixa quanto a cena do metal extremo em Curitiba.

Até maio desse ano eu estive trabalhando em dois empregos e, após mais de um ano de muita dedicação e esforço, conquistei meu terceiro burnout 🏆🏆🏆 

Essa foi, de longe, a crise mais difícil de lidar e, apesar de parcialmente recuperada, ainda estou avaliando os estragos que ficaram pelo caminho.

Acho que essa crise de burnout pode, na verdade, ser uma boa analogia para o que tem acontecido na cena extrema aqui em Curitiba com relação aos shows. 

Para quem não sabe, aqui não existem produtoras de shows underground. Normalmente quem organiza os eventos são as próprias bandas, ou produtoras de fora – especialmente de Santa Catarina e São Paulo – que acrescentam às turnês uma parada em Curitiba como meio do caminho entre São Paulo e Floripa.

Estar nesse “meio do caminho” sempre foi uma sorte danada para a gente que mora aqui, mas, como tudo na sociedade, esse movimento tem ciclos.

1. O cenário macro

Muitas das publicações que fiz aqui no Curitiba Metal de um ano para cá têm como tema subjacente o fato de as agências estrangeiras terem se apercebido da devoção dos fãs latino-americanos como forma de capitalizar. Somos, afinal, fiéis apaixonados capazes de encarar qualquer perrengue pela banda do coração. Eu mesma cheguei a conseguir dinheiro emprestado para comprar ingresso para um show no final desse ano.

Com isso, a América Latina virou parada obrigatória no circuito internacional de turnês de metal, especialmente no período de fim de ano – quando o inverno força a baixa temporada na Europa e América do Norte. 

Assim, produtoras locais como a mexicana Chamuco e a Savage Noise, da Colômbia, se juntam para produzir cada uma um braço da turnê latino-americana de cada banda, sendo, aqui no Brasil, Caveira Velha, Xaninho e Liberation as produtoras responsáveis pela maior parte dos shows de bandas ligadas ao underground. Existem produtoras ainda mais underground, a exemplo da Bruxa Verde e Seven Crossroads, mas o volume de turnês produzidas por essas agências é proporcionalmente menor.

México, Colômbia e Chile têm certa tradição de grandes festivais, com isso, conseguem reunir headliners de peso em um único evento que costuma se repetir anualmente. Já aqui no Brasil, o único festival dedicado exclusivamente ao metal extremo é o Setembro Negro, que já não acontece mais todo ano. Desse modo, muitas das bandas que tocam juntas em grandes eventos em outros países vêm ao Brasil para shows individuais – todos em datas muito próximas.

Se, por um lado, é excelente que haja essa temporada de shows na América Latina, por outro lado, a falta de estrutura e volume de público para festivais underground coloca os fãs sob a pressão das restrições de tempo e dinheiro. Até hoje não me perdoo por ter tido que escolher entre ver Satyricon e Katatonia em 2023 porque não poderia passar vários dias ausente do trabalho.

Mas é basicamente isso: como passou a existir uma temporada de shows na América Latina que acontece no contrafluxo dos shows na Europa e América do Norte, todas as bandas vêm para o Brasil em datas muito próximas. Não é incomum que entre os meses de outubro a dezembro aconteçam vários shows numa mesma semana, o que não dá aos fãs tempo para planejar férias ou se recuperar financeiramente entre um show e o outro, já que os ingressos não costumam ser baratos.

2. O cenário regional 

O contexto local tem uma dinâmica própria. Como falei anteriormente, aqui em Curitiba não temos produtora de shows que traga bandas de outras cidades para cá ou leve nossas bandas para fora daqui. Quem fortalece muito o corre local é o pessoal da Bruxa Verde, que tem cuidado do trânsito de diversas bandas entre São Paulo, Paraná e Santa Catarina, mas nem sempre tem uma produtora viabilizando o corre.

Foi o caso da banda de doom Ode Insone, de João Pessoa-PB, que veio à região Sul para participar do festival Bob Rock, que acontece em Dona Emma-SC. Vou falar um pouco da cena catarinense mais adiante.

O vôo deles viria de João Pessoa para Curitiba, e daqui eles iriam de van para o festival. Com toda a razão, optaram por fazer da parada um evento e produziram, eles mesmos, todo o rolê, que aconteceu no Basement em março. Da minha parte, ajudei no que pude indicando contatos de casas, serviços e outras bandas para o line-up, especialmente porque acho admirável essa garra que o pessoal do underground tem para fazer tudo na base do DIY. 

Outra banda que veio para cá num puta esquema de guerrilha foi a Sangue de Bode, que veio dirigindo do Rio de Janeiro para uma série de 15 shows em diferentes cidades entre RJ, SP, PR e SC. Curitiba foi a última parada, em 29/05, e eles tavam só a capa da gaita. A turnê começou ainda em abril, e logo depois do show no Lado B eles tocaram dirigindo de volta para o Rio. 

Não tem como não respeitar a paixão de quem tá no underground. 

Se com o apoio da Bruxa Verde já foi essa guerrilha toda imagina pro pessoal que faz tudo por conta. 

Por isso também não tiro a razão de bandas que optam por não parar em locais em que não haja ninguém para bancar a produção local.

Um exemplo recente foi a Luxúria de Lilith, que tocou em Floripa, em FUCKING CRICIÚMA e Balneário Camboriú em SC, mas não botou os pezinhos em Curitiba. Ou Ophiolatry, que fez show único em Foz do Iguaçu-PR. Ou o Violator, que deve fazer show único em Cascavel-PR. Ainda tem o show do Aeternus e Centinex, produzido pela Tumba, de SP, que acontecerá em Foz e em Londrina-PR, mas nada de Curitiba.

3. O individualismo do cenário curitibano

Por fim, temos Curitiba: a eterna quinta comarca da província de São Paulo. 

Aqui, já há vários meses não acontece nenhum show de metal extremo, mas o restante da agenda de shows para 2026 até que está agitado: Ereboros em setembro; Amorphis e Black Label Society em outubro; Six Feet Under em novembro, Opeth, anunciado para novembro, exatamente no mesmo dia e horário em que Benediction se apresentará em outro local; em dezembro, Testament retorna à cidade após um ano, tendo como convidados Municipal Waste e Immolation – imperdível!

Mas, não, não tem absolutamente nada de black ou de doom metal no horizonte por aqui. Nos últimos meses, só as bandas do Angraverso têm lembrado da existência de Curitiba, onde sempre encontram casa cheia no Hard Rock Café e no Stage Garden. Isso só corrobora minha hipótese de que Curitiba tem, sim, público de metal – Angra e Iron Maiden praticamente moram aqui, né – mas não tem público underground. 

Nem venha dizer que metal é, como um todo, um gênero underground, porque o público que esgotou em poucas horas os ingressos para o Iron Maiden no estádio do Atlético não é, absolutamente, o mesmo que irá ao basement assistir o meu xuxuzinho Ereboros no Basement. 

É nesse ponto que tocamos na minha tese central com esse trabalho de pesquisa sobre o rolê do metal em Curitiba: muito do que eu observo sobre o consumo do metal como música e cultura se dá na chave da performance de gênero. 

Explico: o consumo do metal no cenário cultural curitibano revela, sim, subjetividades relacionadas à estética e ao gosto musical, mas, além disso, revela comportamentos reiterados que constroem uma encenação de um padrão idealizado de gênero – em especial, de masculinidade – que é atravessado por marcadores de raça e classe social. 

É a prevalência desse consumo performático que faz de Curitiba um cenário fértil para shows caros do metal mainstream, como esses que exemplifiquei logo acima, além de bandas muito grandes mais próximas do metal extremo, como foi o caso de Cradle of Filth e Behemoth que tocaram aqui no último ano, e de Testament, que retornará em breve. Em comum, todos esses shows têm a realização feita por uma produtora de postura abertamente elitizada, com ingressos a preços acima da média e separação entre pista comum e pista premium; uma forma de exclusivizar – no sentido de classificar – a experiencia que o fã pode ou não acessar com base em seu poder aquisitivo.

Não estou fazendo juízo de valor dessa prática que acabei de descrever, mas considero que isso amarra como o que discutimos no início do texto, sobre capitalizar sobre a paixão e a fidelidade do público latino-americano em geral, com o “plus a mais” de mexer com a disposição ostentatória de um público que anseia por se diferenciar – e está disposto a pagar por isso. 

4. Outras articulações – o underground 

Mas, ainda que hajam intersecções significativas, o público do metal mainstream não é o mesmo público do underground. O público do underground não tem denominador comum, como é o caso da disposição ostentatória do consumidor do mainstream. Na verdade, eu observo que quanto mais underground o rolê, mais judiado pela vida (kkkk) é o público – algo que, naturalmente, inclui o aspecto socioeconômico. 

Por essa e por outras razões, acredito que seria lícito afirmar que o fã do metal extremo não é um cliente.

Não é que não haja consumo no underground extremo, nem que não haja gente com muita grana que curte o estilo. É que, quer ele se aperceba ou não, o público do underground é em sua maioria de classe trabalhadora, e é, ou se sente, de alguma forma marginalizado por uma sociedade de consumo que é branca, cristã e hiper excludente. Não acredito, afinal, que alguém se aproxime do black metal ou do crust punk, por exemplo, porque está contente com a própria existência na sociedade.

Nesse sentido, o que o underground facilita é a construção de articulações e sociabilidades que não têm o consumo como finalidade, mas encontram um sentido comum no compartilhamento da emoção intensa – seja a paixão ou o ódio – por meio da música. 

Tudo isso é muito bonito, muito romântico, mas produzir shows e turnês é um negócio CARO. Eu diria que também é incrivelmente trabalhoso, mas trabalho também é custo, tanto humano quanto monetário, o que só vem reforçar o quão caro é todo esse rolê de produção.

Então o cenário que se desenha é o seguinte: nos últimos anos cada vez mais bandas underground estrangeiras têm vindo ao Brasil; elas costumam vir, a maioria, na mesma época do ano e isso é bacana porque movimenta também a cena para bandas e produtoras locais. Por outro lado, a frequência acumulada desses shows coloca pressão financeira sobre os fãs que já vêm sofrendo, especialmente desde a pandemia, com o progressivo aniquilamento do poder de compra da classe trabalhadora. Aliás, um parêntese: esse é um fenômeno global. Do contrário, as agências europeias e norte-americanas dificilmente olhariam com tamanha atenção para o público/mercado latino-americano.

Mas, voltando: Confrontado com o fato de ter que escolher a qual show ir, especialmente quando isso envolve custos de viagem, estadia e ausência do trabalho, o fã dificilmente dará prioridade a assistir bandas nacionais e/ou bandas estrangeiras menos conhecidas. É aqui que pesa muito o fato de Curitiba ter um público underground reduzido e financeiramente desgastado: ainda que a cidade seja referência de shows para o interior do PR e SC, vide shows um pouco maiores que continuam acontecendo por aqui, o público acaba não sendo suficiente para que os shows dêem às produtoras o retorno financeiro necessário para cobrir os custos de produção + adiantar parte dos custos dos próximos eventos. Acaba sendo mais garantido fazer os shows apenas em São Paulo, onde o volume de público é muito maior.

Assim, esgotou-se o cenário de shows de metal extremo em Curitiba. Sem os eventos realizados por produtoras de fora, também morre o espaço para bandas locais – com exceção do Lado B véio de guerra e das excursões para festivais de pequeno porte no interior de Santa Catarina.

O interior catarinense tem uma tradição própria de festivais de metal extremo. Alguns, como o Bob Rock (em Dona Emma-SC, cidade com pouco mais de 4 mil habitantes) e o Otacílio Rock Fest (em Otacílio Costa-SC, que tem aproximadamente 17 mil habitantes), já acontecem há vários anos e costumam ter importantes bandas nacionais como headliners. Outros festivais costumam trazer entre 4 e 10 bandas para clubes em cidades como Pomerode-SC (~37 mil habitantes) e Rio Negrinho-SC (~40 mil habitantes).

Esse cenário dos rolês em cidades menores exige do público uma articulação que a cena curitibana simplesmente não tem. Ela até existe, vide o fato de sempre ter excursões que vão daqui para SC e SP, mas dentro da cidade a coesão é praticamente inexistente, o que, somado à ausência de produtoras locais voltadas para o underground, fomenta a dependência de turnês nacionais para aquecer a cena também para bandas locais. Com o esgotamento desse mercado, vem a estagnação cultural do metal underground em Curitiba.

Considerações finais

A explosão de shows do pós-pandemia arrefeceu, e o cenário sob a poeira não é dos melhores. O metal extremo em Curitiba entrou em dormência, dando raros sinais de atividade quando bares de cover abrem espaço para bandas autorais, e quando bandas curitibanas se deslocam para os festivais alternativos em Santa Catarina por não poder ou, simplesmente, não querer cavar na unha um espaço de representação cuja legitimidade é constantemente disputada.

Chega uma hora que cansa mesmo. A sobrevivência está, por si só, bastante difícil e já não sobra muito espaço para viver de fato. Resta, agora, planejar as dívidas os gastos com muito mais cuidado e encarar, ocasionalmente, uma viagem para ir nos rolês que a gente curte.

Não faço ideia do quão longo será esse período de baixa, mas não creio estar perdido o espaço conquistado pelo underground no cenário musical curitibano. Talvez até seja uma oportunidade de articular com o pessoal de outras cenas, articular com o pessoal que também tá nesse corre.

Mas, aiai, como está fazendo falta um showzinho de black metal!

Nos vemos no próximo rolê.
Vida longa ao underground!

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